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Róbson Gracie sábado, 04 de outubro de 2008 - 12:00:01 Por Eduardo Ferreira

Filho do mestre Carlos Gracie, Róbson prestigiou o aniversário de 95 anos de seu tio Hélio Gracie e concedeu uma entrevista exclusiva ao site TATAME. Presidente da Federação de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro, o irmão de Carlson falou sobre as polêmicas graduações de Eugênio Tadeu, ex-rival da arte-suave, e do Senador Marcelo Crivella, candidato a Prefeito do Rio de Janeiro, que dividiram a comunidade da luta durante as últimas semanas. Confira abaixo a entrevista com o mestre Róbson Gracie, que, além de comentar sobre os novos faixas-pretas de Jiu-Jitsu, falou sobre o seu trabalho na Federação, analisou o futuro da arte-suave e creditou a longevidade de seu tio à dieta Gracie, criada por seu pai.

 

Como o senhor vê o mestre Hélio Gracie completando 95 anos com essa energia toda?

 

O professor Hélio, nada mais nada menos, está seguindo uma saga que é quase que da família, a gente tem algumas exceções, mas são todos longevos. A minha avó, a mãe dele, morreu com 105 anos, o irmão dele, o papai, com 94. Então, está aí, o professor, completamente lúcido. É um marco fantástico da nossa história. Você mais do que eu, porque você, inclusive, escreve sobre isso, fala sobre isso, publica sobre isso, sabe o que foi a saga que esse homem fez: a saga da vida dele, a saga do papai...

 

Você acha que o segredo dessa longevidade foi a dieta desenvolvida por seu pai?

 

Indubitavelmente, porque têm pessoas que vivem até uma idade bem adiantada, mas completamente desarticuladas, sem raciocínio, com raciocínio prejudicado, e o professor Hélio está aí lúcido como se fosse um rapazinho. A gente vê o segredo das coisas. Por exemplo, professor Hélio, Carlson, que é da segunda geração, e hoje nós estamos na sexta geração. Me mostra, em qualquer lugar, que não seja de banqueiros ou de donos de fábricas, que uma profissão se estenda por seis gerações: não tem. De luta, tem a nossa. De esportista, você não vê ninguém. Você vê os nossos adversários, o que é feito da família Waldemar Santana? O que será feito desses homens que estão lutando hoje por aí? Quanto ao nosso, não. Os nossos netos estão lutando, os nossos bisnetos vão lutar, porque mais do que um esporte, é uma filosofia de comportamento, de vida e você vê a quantidade de gente que tem aqui, você vê mesmo os outros quando desaparecem, como foi o caso do meu filho, do Ryan... Eram duas mil pessoas que se despedindo dele. Nós temos, além do desporto, a parte técnica e disso tudo, o que vale muito pra gente é a parte moral, é a parte de isenção em relação a ódios. Nós temos a raiva necessária para lutar, pra se enfrentar, nós não temos ódio de ninguém, ainda nos damos com todos os nossos grandes adversários.

 

Como está o seu trabalho a frente da Federação de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro?

 

Olha, eu nunca vi um desenvolvimento tão grande, principalmente agora que foi criada uma lei em que você pode ser um técnico em artes marciais, e o ministro do trabalho, senhor Carlos Lupi, conversando comigo, batemos um papo juntos, o que ele resolveu fazer? Resolveu criar o atleta profissional, ou seja, o desportista profissional, todos os desportistas que trabalham com o desporto, vão ter a chance de poder se transformar em técnicos do desporto, de cada segmento ou desporto, isso nós já temos nas artes marciais. Vamos fazer uma grande festa. O nosso professor Hélio Gracie, hoje eu estava falando com ele, está com o décimo grau, esse homem não tem nada para mensurá-lo, nada existe que diga que ele é primeiro, segundo, décimo, décimo segundo... Ele está acima disso. Então nós vamos acabar com esse negócio de o professor Hélio ser apenas o décimo grau. Não tem limite. Ele é uma lenda, é um mito, e como mito, isso acaba. Falei com ele: “vou te tomar essa faixa hoje, e nós vamos juntar o conselho de ética pra ver, se é que nós temos essa capacidade de dizer e de mensurar o que você é”.

 

E quem faria parte deste conselho de ética? Seria só a família...?

 

Não, não. Todos os grandes lutadores, as pessoas que trabalharam com ele, que trabalharam com a gente, que se enquadram na filosofia do Jiu-Jitsu, porque isso não se pode nem dizer mais que é a filosofia Gracie. A coisa se espalhou no mundo inteiro. Eu acabei de deixar meu filho, Renzo, no aeroporto, ele está voltando pra Nova Iorque. Ele me contou que a coisa cresceu muito no exterior, nos Estados Unidos, no mundo inteiro... Ele esteve na Islândia dando uma clínica de Jiu-Jitsu. São essas pessoas que nós vamos trazer para um simpósio nosso, para dizer como o professor Hélio Gracie deve ser chamado.

 

O Joe Moreira deu a faixa-preta de Jiu-Jitsu para o Eugênio Tadeu, outrora rival da arte-suave. O que o senhor acha disso?

 

Eu gosto do Eugênio. Tivemos um encontro, ele até foi prestigiar uma medalha que o professor Hélio recebeu na Câmara dos Vereadores, não tenho nada contra ele. Eu só acho que Joe Moreira, ou o antigo Joe Macaco, não pode estar dando faixa pra ninguém. Que entidade é ele? Com todo o respeito que a gente tenha pela diversidade, pelas pessoas diferentes da gente, mas quem é Joe Moreira pra dar faixa pra alguém? Pelo amor de Deus, vamos nos ater às regras, sem regra você não pode dar nada a ninguém. Você não pode ficar em pé, como é que pode sustentar alguém?

 

O Eugênio disse que não treina de quimono e que a faixa foi apenas simbólica...

 

Então você vê que é um simbolismo quase que idiota, despido de qualquer base, de qualquer coisa, é a mesma coisa, amanhã você me dá o título de doutor médico, cirurgião plástico ou da Academia Brasileira de Letras...

 

Recentemente o senhor deu a faixa-preta ao candidato a Prefeito do Rio, Marcelo Crivela. Ele é praticante de Jiu-Jitsu?

 

O faixa preta, na acepção da idéia, tem que ter um postulado. Eu conheço o senador Crivela com todas as prerrogativas de um faixa preta, não no ringue, mas um faixa preta existencial. Eu acredito que nem político, mas é uma figura humana que simboliza o que a gente quer premiar. No Jiu-Jitsu, quando a gente atesta que uma pessoa é faixa preta é pelos seus méritos e o Crivela tem méritos inalienáveis, e inclusive em relação ao desporto. Nós temos um prédio em Inhaúma, o palácio dos esportes, onde estão sediadas 39 federações, que por incúria do governo, desse ou daquele governante, nós estávamos na rua, despejados, estávamos sem luz, sem água, sem nada e já estávamos para ser despejados quando eu apelei para o senador Crivela, para o prestígio de um senador, que não deixasse na rua as 39 federações que dirigem o desporto no Estado.

 

Então, qual a diferença da faixa preta dada para o Eugênio da faixa dada para o Crivela?

 

O Eugênio, teria sido dado a ele por um mérito esportivo, pelo que eu sei ele é um bom lutador, é um lutador raçudo, é tudo isso... O outro não, foi dada faixa preta honoris causa, que é o Crivela, por honra de causa. Ele não vai dar aula e nem vai dar golpe em ninguém, então a diferença é exatamente essa, por mérito ao desporto e por comportamento humano. Você, amanhã, não sei se você luta ou não luta, mas o seu comportamento à frente de uma revista, na reportagem, em se manter ilibado, em se manter correto, você é um faixa preta jornalístico. Então, esse foi o motivo pelo qual nós demos essa faixa preta ao Crivela.

 

O que o senhor espera para o futuro do Jiu-Jitsu?

 

Estou achando que, como nós estamos com esse avanço tão grande, que nós vamos ter maior desenvolvimento no mundo inteiro e maior compreensão por parte de certa imprensa que cisma em dizer que nós somos um esporte de violentos, de espancadores, de cafajestes. Você vê que o Minotauro hoje, por exemplo, um Wanderlei, eles não são reconhecidos aqui como coisa alguma, como o Rickson, como o Carlson, como o Róbson, como o professor Hélio... De certa forma nós somos cerceados no nosso desenvolvimento porque nós não temos um único órgão da imprensa que dá a notícia de uma grande vitória que nós temos lá fora. A gente ganha do mundo inteiro e não sai uma única linha no jornal, com raríssimas exceções.


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