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Rodrigo Comprido sábado, 25 de julho de 2009 - 07:00:01 Por Erik Engelhart

Bicampeão mundial absoluto de Jiu-Jitsu, Rodrigo Comprido está morando há dois anos nos Estados Unidos, onde comanda os treinos da Brasa e cuida do Jiu-Jitsu de Brock Lesnar, atual detentor do cinturão dos pesados do UFC. Em rápidas férias no Rio, para rever os amigos e tomar açaí, o casca-grossa foi surpreendido pela TATAME, que aproveitou para invadir a Brasa de Laranjeiras e conversar com o faixa-preta em um descontraído treino com os amigos. Na entrevista exclusiva, que você confere abaixo, Comprido apontou Roger Gracie como o maior campeão absoluto de todos os tempos e Demian Maia como o maior representante da arte suave no MMA, falou do atual panorama do Jiu-Jitsu brasileiro, comentou a evolução de Lesnar, a luta entre Minotauro e Randy Couture, analisou um possível confronto entre Minota e Brock, entre outros assuntos.

 

Como está o trabalho nos Estados Unidos?

 

Eu estou em Chicago tem dois anos, na Brasa Chicago, e já estou com alguns alunos com escolas satélites ali perto, em Ohio. Estou tentando fortalecer o trabalho para manter o time sempre unido. Procuro treinar com o Traven, com o Esfiha, o Robert Drysdale... Sempre procuro estar em contato com os meus amigos.

 

E essa vinda ao Brasil depois de dois anos... Vai ficar até quando?

 

Vou ficar um pouquinho mais de um mês... Estava há dois anos sem vir ao Brasil e aproveitei para tirar um mês de férias. Na verdade, lutador não tira férias. Vou passar 15 dias no camp que temos em Búzios e, quando eu estiver no Rio, vou vir aqui treinar nas academias da Brasa, no Muzio, no Castelo, e vou batizar meu filho de um ano e oito meses, que nasceu nos EUA. Vim para matar a saudade dos meus amigos, tomar açaí, porque o de lá é muito ruim (risos).

 

Como está o projeto para as crianças do Instituto Benjamin Constant. Você supervisiona, participa?

 

Aqui no Brasil, eu, o Felipe Costa e a Michele temos um projeto para os deficientes visuais no Instituto Benjamim Constant. Tenho acompanhado de longe, pois estou há dois anos longe do Brasil, mas agora que estou aqui, com certeza vou lá dar aulas para as crianças. É um trabalho que está dando resultado, essas crianças vem lutando e bem, ganhando as lutas e o mais importante: ganhando confiança, inspiração para continuar vivendo e inspirando a gente. Eles mostram que mesmo tendo uma deficiência grave estão lá se esforçando. Às vezes a gente reclama da vida, mas sempre tem alguém com um problema pior do que o seu.

 

E o Comprido, quais são as próximas metas individuais dele?

 

Eu continuo em atividade, mas é claro que está um pouco mais difícil porque minha academia só tem dois anos e a maioria dos meus alunos são faixa-azul. Tenho apenas dois faixas-marrons, que já eram antes de chegar aqui. Os garotos estão se desenvolvendo, indo bem, mas isso afeta um pouco meu treino para um desempenho em competição, mas eu tenho ido. Fui campeão Pan-Americano, no Mundial perdi na minha segunda luta, nos campeonatos locais, como o NAGA, eu me dou bem. Nesses campeonatos, a experiência ainda está prevalecendo... Em campeonatos maiores fica um pouco mais difícil.

 

Quem é o grande representante do Jiu-Jitsu atualmente no MMA?

 

O Demian é o cara do Jiu-Jitsu, não desmerecendo ninguém. Tenho uma admiração enorme pelo Minotauro, o que ele viveu dentro do tatame, a postura que ele tem como lutador e como pessoa, ele é uma inspiração, mas, hoje em dia, o Demian, pelo estilo dele de luta, é o cara que está vingando o Jiu-Jitsu de todas as formas... Cinco lutas, cinco vitórias e todas por finalização no UFC, não dá pra reclamar, né?

 

Você já lutou com o Nate Marquardt no ADCC. Como você acha que vai ser a luta dele com o Demian, dia 29 de agosto, no UFC?

 

Eu tive a oportunidade de vencer ele em Abu Dhabi, mas é uma luta muito dura, talvez a mais dura do Demian até hoje. O Nate bate em linha andando para trás, sai batendo, e isso pode ser um problema, mas o Demian está preparado para o que vier e eu não tenho dúvidas de que ele vai conseguir impor o jogo dele.

 

E no panorama atual do Jiu-Jitsu, quem enche os seus olhos nas competições de pano?

 

Não tem como você falar dos grandes campeões e não falar do Roger. Ele tem um Jiu-Jitsu bem básico, mas bastante eficiente, então é um cara que a gente tem que admirar. Da nova geração eu gosto muito do jogo dos irmãos Mendes, são garotos que estão indo para cima e desenvolvendo posições novas e eu acho engraçado que “nego” não sabe defender a posição e acha que é ruim ou querem banir a posição... Tudo foi assim, cara... Eu lembro da guarda aranha há dez anos atrás, não sabiam defender e ficavam falando que era amarração e é uma ferramenta fortíssima de guarda. Primeiro eles têm que aprender a passar a guarda que os Mendes fazem, o que vai ajudar no desenvolvimento de novas posições... Você não é bom? Então deixa o cara raspar!

 

Quem você apontaria como o maior campeão absoluto de todos os tempos?

 

Acho que, pelo conjunto da obra, eu apontaria o Roger, porque ele esteve em seis finais de absoluto, se eu não estou enganado, então no Jiu-Jitsu de pano, nos últimos tempos, ele é o cara mais credenciado. Não podemos descartar o Amaury, Zé Mario, Margarida, Jacaré, que é um fenômeno, o Xande, que é forte, experiente técnico e tático, Rômulo Barral que finalizou todo mundo até a final do Mundial, o Pé-de-pano, é muita gente boa.

 

Descendo um pouco de categoria, o que você achou do tetracampeonato do Cobrinha, igualando o feito do Royler?

 

Recordes são feitos para serem quebrados, é o que tem que acontecer. O Cobrinha é um cara novo ainda, tem muitas lutas pela frente, é um cara muito bom. O Royler, quando chegou no quarto título, já tinha uns 35 anos, eu acho, mas eu vejo os garotos chegando. Na final do Bruno Frazzato com o Cobrinha eu teria dado para o Bruno, mas o Cobrinha venceu e não adianta mais chorar pelo leite derramado. O Rafael (Mendes) está ali perturbando, não existe super-homem, um dia um perde, graças a Deus temos atletas em condições de ser campeões em todas as categorias.

 

No último Mundial e em recentes competições, tem-se notado que a pontuação tem sido baixa assim como o número de finalizações. O que você acha que pode ser feito para que os atletas soltem mais o jogo?

 

Isso é culpa da arbitragem, da regra. A regra é muito complacente com o cara que não quer lutar, o que acho que deveria acontecer é: se você tomou uma punição e subjetivamente está perdendo, tomou uma vantagem negativa. Segunda punição: dois pontos. Terceira punição: desclassificado. Hoje você precisa tomar quatro punições de amarração para ser desclassificado, ou quatro punições de qualquer outra coisa para poder ser desclassificado, porque o juiz pode simplesmente te tirar dois pontos novamente.

 

Punição é punição. Você vê no Judô: o cara pisa fora, toma uma punição, se amarrar toma outra, e as punições vão se acumulando e o cara quando está pressionado e sabe que pode ser desclassificado, ele vai querer lutar. Acho que os juízes têm que ficar em cima pressionando os atletas. Se a luta não está acontecendo, os árbitros têm que interferir para que a luta se desenvolva.

 

Hoje em dia você ganha vantagem de meia guarda, independente de como você chegou lá. Se você raspar e cair na meia guarda, ganha dois pontos por uma vantagem de meia guarda... A troco de quê? Eu não entendo... O cara caiu naquela posição, então se eu raspar e cair do lado vou ganhar cinco pontos? Dois pontos de raspagem, mais uma vantagem por estar do lado... Pra mim isso não faz sentido. A regra tem que ser mais básica, pois é muito ampla e dá margem para várias interpretações, são muitos detalhes, fica quase impossível de aprender. Quando eu explico as regras para os meus alunos, eles veem que não faz o menor sentido.

 

Como você acha que vai ser a luta do Minotauro contra o Randy?

 

O Randy é uma lenda tão grande quanto o Minotauro, são dois excelentes atletas. Ele é muito forte naquele “dirty” boxe, de deixar o cara na grade e ficar dando porradinha e começar a cortar o cara e machucar, é muito forte também no ground and pound, porém eu tenho certeza que se Minotauro for para o chão vai pegar o cara. O Rodrigo tem que fazer a luta de chão, no meio do octógono, para não correr o risco de cair na grade. O Minota tem muito coração, muita vontade de vencer, ele se recupera de situações horríveis e já sai finalizando... Boto fé que ele vai ganhar.

 

Como você avalia a evolução de Brock Lesnar como atleta, principalmente a parte de chão, que você tem ensinado a ele?

 

Eu comecei a trabalhar com o Brock depois da primeira luta dele contra o Frank Mir. Eu acompanho pessoalmente os treinos e o cara aprende com uma facilidade enorme, quando você o vê lutando dá para perceber que está evoluindo bastante. Acho que o chão dele está forte, sólido. Estamos conseguindo deixar ele confiante em todas as áreas.

 

Quem é o cara que pode tomar o cinturão de Brock Lesnar?

 

A luta que eu não quero é contra o Minotauro, porque ele é um cara muito bom de Jiu-Jitsu e dificilmente vai ser nocauteado no ground and pound, mas, se ele vier, eu vou arrumar uma arapuca para ele. Vou ter que ajudar o Brock para cima dele, e eu não gosto dessa opção. Seria uma luta muito dura, eu gosto muito do Minotauro, que trouxe o Jiu-Jitsu brasileiro para o topo, mas em um esporte desse nível você não pode escolher os atletas. Se ele vier, o meu vai estar treinado.

 

Quer deixar um recado?

 

Estou com saudades de lutar no Brasil... Assim que eu puder vou lutar, espero continuar fortalecendo minha equipe... Valeu TATAME, um abraço.


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