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Oswaldo Paquetá quarta-feira, 16 de dezembro de 2009 - 16:36:01 Por Eduardo Ferreira

Oswaldo Gomes da Rosa, o Paquetá, completou, este ano, 50 anos de Jiu-Jitsu. Aluno e melhor amigo do saudoso mestre Carlson Gracie, Paquetá é uma das figuras mais carismáticas da arte-suave e dono do maior acervo de vídeos do Brasil. Confira a seguir um bate-papo completo com Paquetá. Parabéns, mestre!

 

São 50 anos de Jiu-Jitsu que você está completando, não é isso?

 

São 50 anos e, na realidade, antes de eu fazer Jiu-Jitsu, eu já fazia Judô com o mestre Nagashima na ACM, em 58, depois fiz Jiu-Jitsu no Almir Ribeiro, até que uma vez, conversando com o Carlson, ele pediu que eu fosse até a academia dele. Eu trabalhava em frente a academia, eu era Boy de um escritório e na hora do almoço eu ia lá, onde passei a treinar, só que na época o Hélio me cobrou  o que equivalia a meio salário mínimo, que era o que eu ganhava, antigamente quem era menor ganhava meio salário mínimo e meu pai era gari e eu tinha que ajudar, então eu não tinha condições.

 

Um dia o Carlson chegou pra mim e falou: “Vai lá que eu falo com o Hélio”. Ele foi lá, falou com o tio Hélio, que me deixou treinar, fiquei como aluno pagando muito pouco, depois ele viu que eu era uma cara forte e me botou para treinar junto com os Fuzileiros Navais, as segundas-feiras e várias vezes fui com o Carlson no Corpo dos Fuzileiros com o Carlson, onde ele dava aulas. Dessa convivência começou uma grande amizade, cheguei a morar com ele, e levamos uma vida de amigos e passei a conviver com a família Gracie e sempre tive um bom relacionamento com todos eles, desde o Carlos que era o chefe do clã e naquela época o quimono fazia parte da academia, você não precisava comprar, final de semana Carlos levava para a lavanderia e terça feira os quimonos voltavam limpos.

 

Você era fisiculturista na época?

 

Eu fazia halterofilismo, era muito forte. Toda vez que eu ia treinar, o Hélio passava a mão dele na minha e falava: “Você fez peso hoje, não faça isso” e depois que ele me explicou, vi que ele tinha razão, porque o peso te dá força momentânea, você aperta o cara e se ele não bater logo você perde a força, eu era tão forte que se eu pegasse na própria cabeça, o cara batia. O único ali que tinha mais força do que eu era o Carlson, ele pegava uma lista telefônica e rasgava no meio, era uma força tremenda, embora fosse magro, era um magro forte. Teve o João Alberto, o Robson que era muito bom. Eu tinha 78 kg na época, o Carlson pesava por volta de 75 kg. Nessa época eu estava com 18, 19 anos, no exército, agora estou com 69, faço 70 no dia 8 de janeiro.

 

Quando você chegou à academia Gracie do centro?

 

O escritório era no 17º andar e a academia era no 19º andar, tinha o ringue enorme, era o maior ringue, me lembro que o Hélio chegava lá com o Rickson pequenininho. O Waldemar treinava lá antes, nessa época já havia brigado, esse problema todo mundo conhece, ele queria lutar porque era carregador e trabalhava na rouparia ganhando muito pouco. Ele pediu ao Hélio para lutar dizendo que havia arrumado uma luta e o Hélio disse que ele não ia lutar com marmeleiro, porque o Hélio não aceitava marmelada, eu sou testemunha de várias lutas que o Hélio proibiu, quando ele sentia que era marmelada ia lá e proibia. Em Teresópolis teve uma luta que o Hélio sentiu que era marmelada e disse: “no ônibus vocês não vão, se quiser vão a pé, porque vocês fizeram marmelada”, a sorte é que tinham dois fuzileiros navais que eram lutadores e tinham moto e trouxeram os caras.

 

O Waldemar foi lutar e falou pro seu Hélio: “lutei e ganhei X”, aí o Hélio o chamou de negro safado, esse foi o grande problema e ele já tinha um problema com um jornalista famoso, o Carlos Renato, que foi aluno dele. O Carlos tinha uma página no jornal Última Hora e ele já estava brigando com o Hélio e quando ele viu essa confusão com o Waldemar ele chamou o Waldemar para montar uma academia, montaram na Cinelândia, os melhores da academia Gracie saíram e academia caiu vertiginosamente, uma academia onde treinava o presidente da republica, Figueiredo, ministros, André Asa, José Maria, jornalista famoso, artistas, todos treinavam lá.

 

Depois de toda essa confusão, eles marcaram a luta, que teve um problema sério... Eu não assisti essa luta porque eu não consegui entrar, estava cheio, eu não tinha dinheiro, fiquei do lado de fora. Eu sei que o seu Carlos subiu no ringue e falou que ia ser a luta do bem contra o mal, sendo que o bem era o seu Hélio e o mal era o Waldemar e houve o que houve, vocês sabem o que aconteceu, uma luta de mais de três horas, a mais longa da história, o Hélio oi uma figura ímpar porque agüentar aquele tempo que ele agüentou, era capaz de matar e ele não sair dali. Ele poderia ter ganhado a luta nos primeiros minutos,mas quis mostrar sua superioridade técnica e foi levando, desenvolvendo a luta e a idade pesou, 42 anos contra 26, ele perdeu ali e isso foi uma tristeza muito grande para o Rio de Janeiro, fiquei muito triste.

 

E depois o Carlson vingou... Chegou a assistir algumas lutas do Carlson?

 

O Hélio Gracie queria arrumar alguma pessoa e eles iam botar o João Alberto, mas entre ele e o Carlson, acharam que o João era muito técnico, nunca foi de bater muito, foi um dos caras mais técnicos que eu conheci. Esses chutes altos que eu vejo  o Crocop fazer, o João Alberto já fazia isso há muitos anos atrás, ele tinha tanta flexibilidade que não tomava nem distância e eu nunca vi ele perder, ganhava todas. Eles iam botar o João, mas ficou aquele problema, se ganhar não é família Gracie, mas na realidade o João Alberto era um filho de criação da família Gracie, ele havia sido criado dentro da academia. O Carlos achou que era melhor preparar o Carlson e prepararam muito bem, foram seis lutas, quatro vitórias e dois empates. Eu acompanhei uma no Maracanãzinho que deu 30 mil pessoas e ficaram cinco mil pessoas do lado de fora. A revista Cruzeiro na época deu capa, seria como um Vasco e Flamengo na decisão, era o que tinha no final de semana, o Carlson era visto como um “garotão”.

 

Me lembro que os navios japoneses quando chegavam aqui no Brasil, pela praça Mauá, os japoneses chegavam perguntando sobre a família Gracie e diziam que queriam treinar com o campeão e o seu Hélio falava que primeiro eles teriam que treinar com um aluno e se ganhasse, poderiam treinar com o campeão, aí ele botava para treinar com o João Alberto, que passava o carro neles, então nunca treinavam com o Carlson porque o João ou Hélio Vigio sempre passaram o carro. Eu parei um período, porque casei, depois senti necessidade de estudar, eu era professor de Jiu-Jitsu na Funabem, nós falávamos Judô, mas era Jiu-Jitsu que ensinávamos. Não existiam campeonatos, eram disputas entre academias, eram intercâmbios, nunca campeonatos. Aí o Carlson me pedia dois ou três alunos bons, eu tinha o Orlando Saraiva que era um que se sobressaía, ele ganhava sempre, era muito difícil perder. O Carlson falava tanto dos meus alunos que um dia o Hélio falou: “traz esses alunos do Paquetá aqui”, aí eu levei, daí botaram o Rolliszinho contra o Orlando Saraiva, em uma bobeada o Orlando fez ele bater.

 

O Hélio ficou pê da vida e chamou o Rolliszinho lá dentro e mandou o treino continuar, todos continuaram e quando chegou uma hora depois, o Hélio voltou com o Rolliszinho e pediu para botar os dois novamente, só que o Orlando já estava cansado, o que não tira o mérito do Rolliszinho, que demorou um pouco mais, mas ganhou do Orlando, ficando no empate. Em 1968 eu fiz um campeonato de Jiu-Jitsu na Funabem, lutaram alunos do João Alberto, da academia Gracie, meus alunos e quem foi campeão foi a academia Barradas, que ficava na Riachuelo, eu fiquei em segundo lugar e a academia Gracie havia levado poucos alunos e perdeu, mas isso era o de menos, a intenção era movimentar o Jiu-Jitsu.

 

Como surgiu o seu apelido, Paquetá?

 

Quem deu foi o Hélio Gracie, porque quando eu morava em Paquetá e vinha treinar, ele falava o lutador de Paquetá e não falava o meu nome, aí foi ficando, o Carlson também chamava e ficou. Teve uma época que eu fui trabalhar na Funabem eu fui assumir uma instituição, uma intervenção federal, onde eu já era diretor e o documento veio destinado ao professor Paquetá e na hora de assumir e o juiz disse que eu não poderia assumir porque o meu nome era Oswaldo Gomes e o oficial havia botado Paquetá, teve que mandar acertar o Diário Oficial, mandar voltar para Brasília toda a documentação para acertar tudo, então esse Paquetá me atrapalhou um pouco.

 

E quando você pegou a faixa-preta?

 

Naquela época professor era faixa-azul, naquela época na academia Gracie não se usava a faixa-preta. Depois que apareceu a federação de Jiu-Jitsu e eles precisaram acertar, mandaram eu trazer o diploma para poder acertar. Fui no Carlson e perguntei se ele ia fazer exame para faixa-preta e ele disse que sim, eu disse que ia fazer também e ele falou que eu não precisava porque já dava aula a tantos anos e já lutou tanto, que não precisa fazer exame, então eu vou dar a faixa-preta para você, aí ele fez umas brincadeiras comigo lá e mandou o Robson, que era o presidente da federação, aí fui considerado faixa-preta...

 

Em 1993, em um campeonato na Gama Filho, a federação chamou a mim e a o Rolles Gracie para dar o diploma de faixa-preta, oficial da federação. Há pouco tempo agora o Robson me chamou e falou que tínhamos que ajeitar o meu diploma porque eu tenho aluno com sete graus e eu não tinha grau, porque veio em 1973, só como professor, agora que eles estão acertando o meu diploma. Eu nunca me preocupei com isso, o que interessava era o que eu sabia e o que eu sei. Eu dou valor ao diploma da faculdade que eu ralei cinco anos, já era casado com duas filhas e precisava ser formado em pedagogia. O diploma que vale para mim é o de Pedagogo. Minhas duas filhas são formadas, uma é jornalista, outra advogada, não gosta de Jiu-Jitsu, não são vascaínas, mas me ajudam muito, são maravilhosas... Hoje eu tenho um neto que é a razão do meu viver.

 

Quantas lutas de Vale-tudo você chegou a fazer?

 

Eu fiz 11 lutas de Vale-tudo, perdi umas quatro ou cinco, lutei fora do Rio também e fiz meu primeiro Vale-tudo em Vitória, Espírito Santo, onde o cara desafiou o Carlson, o Touro Moreno, que tinha empatado com o Waldemar. O Carlson disse que não ia lutar com ele porque não conhecia ele como nada, ele me mandou e disse que se ele ganhasse de mim, lutaria com ele. O cara era durão, porradeiro, aquele que você mata ele, mas não bate, foi uma luta muito dura. Eu tive a oportunidade de ser homenageado em Guarapari e eu soube que o Touro Moreno não deu continuidade, mas parece que os filhos lutam, gostaria de vê-lo, mandei até um DVD da luta pra ele, não sei se meu amigo o achou. Depois lutei no Rio Grande do Sul, depois lutei na Argentina em um campeonato de Judô, estava muito fria, lutei uma da manhã, estava zero grau, perdi em menos de um minuto, quando o cara botou a mão embaixo já meu deu um ippon. Vale-Tudo eu lutei no Pará, Espírito Santo, Rio grande do Sul e Bahia, onde fui assistir uma luta e acabei lutando por falta de lutador, eu não vivia disso, lutava porque gostava.

 

Como começou esta história de filmar? Hoje você tem um acervo...

 

Desde criança, eu sempre gostei de filmar. Eu tinha uma máquina Super 8, eu filmava a minha filha... Em 1969 teve um jornal que fez uma enquete, o melhor professor de Jiu-Jitsu do ano. Além de ter sido tetracampeão dos jogos infantis, eu fui eleito o melhor professor do ano em 69 e eu tinha um troféu muito grande. Um dia eu tinha uma propriedade no Espírito Santo e eu convidei o Carlson para ir lá, ele chegou lá e eu filmava... Já com uma máquina melhor, e o Carlson me perguntou por que eu não filmava as lutas. Na época eu ainda trabalhava na Funabem, e eu tinha um assistente que filmava, e eu pedi para ele me ensinar. Ele me indicou um curso, que eu fiz, comprei uma máquina e comecei a filmar com ele, fui aprendendo, até que fui fazer minha primeira filmagem. Eu comecei a filmar em 1991, era um evento que o Macaco e o Marcos Vinícius faziam.

 

As primeiras que filmei foram no Atlântico Sul, só que a maioria das lutas lá começava às 20h e acabava às 8h, porque chovia muito lá. Eu filmava, e essas fitas, geralmente, eu dava, não vendia, e um dia minha mulher falou: “nós temos duas filhas e você trabalha e dá as fitas”, mas o prazer de dar as fitas era muito grande. Um dia também eu fui na academia Gracie, do Carlson, filmei um campeonato e um cara me pediu a fita, eu fui dando as fitas e o Carlson disse que eu estava dando as fitas para um cara que era milionário, que era pra eu dar para um pobre. “Você vai vender fita”, ele dizia, e me obrigava a vender fitas por R$ 5, R$ 3. A primeira vez que o Jacaré veio lutar aqui, na Ilha do Governador, ele me perguntou o que precisava fazer para ver a luta e eu pedi o endereço dele e mandei a fita. E até hoje eu aço isso, acompanho... Agora poucos me ligaram para agradecer. Eu nunca cobrei. O único que ligou uma vez para agradecer foi o Lyoto.

 

Nestes 50 anos dedicados ao Jiu-Jitsu, o que você guarda de melhor e pior momento?

O que mais me deixa triste são alguns lutadores que eu filmei que morreram. Às vezes estou em casa vendo luta, assisto a daquele garoto e até choro, vou ao banheiro chorar. Eu choro porque é luta de aluno, que eu garoto treinando e morreu em desastre. Às penso em fazer um vídeo só com isso, mas me dá um “negócio” que não deixa eu fazer. O que mais me deixou feliz foi a mudança no esporte, a respeitabilidade com o Jiu-Jitsu, com o MMA. Antes quem fazia Vale Tudo era considerado um vagabundo, brigão, hoje você é respeitado. O crescimento do Jiu-Jitsu, das lutas, hoje você não pode viver de uma luta. No meu tempo você treinava Jiu-Jitsu, Boxe e corria na praia, hoje se você não fizer Muay Thai, Boxe, Wrestling e outros tipos de luta você não é bom lutador. Outra coisa que me deixa muito contente até hoje foi o fim daquela briga que existia entre Jiu-Jitsu e Luta Livre.

 

Se você tivesse que comparar o Carlson com um grande fenômeno da luta, quem seria?

 

O Carlson era único, ele é um ícone do esporte. Uma vez, no Japão, o chefe da Yakuza pediu para tirar uma foto com o Carlson. Ele era um eterno garoto, honesto... Meu melhor amigo.

 

Enumere os cinco melhores lutadores de Vale Tudo e os cinco melhores de Jiu-Jitsu.

 

No Vale Tudo já vou começar com o Carlson, João Alberto, Ivan Gomes, Robson... O Minotauro, o Arona, Zé Mário, Murilo. No Jiu-Jitsu temos o Rolles Gracie, o Amauri Bitetti, Rickson...

 

Quem você destacaria nesses últimos anos?

 

Em primeiro plano o Roger, Jacaré, Xande, Bráulio, Marcelo Garcia. No leve temos o Ricardinho Vieira, o Shaolin, Léo Santos, Robson Moura, Celsinho... Hoje você não pode mais falar que Jiu-Jitsu é só no Rio de Janeiro.


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