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Hillary Williams quarta-feira, 07 de abril de 2010 - 09:15:01 Por Gláucia Arakaki

Diretamente de Little Rock, Estados Unidos, a faixa-marrom Hillary Williams, que já esteve várias vezes no Brasil, inclusive roubando a cena e passando o carro nos campeonatos por aqui, se prepara rumo ao Pan-Americano de Jiu-Jitsu, que acontece entre os dias 8 e 11 de abril. Atual campeã mundial peso e absoluto sem quimono e medalha de bronze no ADCC, a atleta vem se preparando forte. Numa entrevista exclusiva à TATAME, Hillary falou sobre o começo da carreira e como se apaixonou pela arte suave, os treinos que fez com alguns dos maiores nomes do Jiu-Jitsu, o crescimento da luta entre as mulheres, a expectativa para o Mundial Profissional de Abu Dhabi e muito mais.

 

Como você conheceu o Jiu-Jitsu?

 

Tinha um amigo da época em que ia muito a shows de punk, o Mark. Ele era meio gordinho e tal, mas desapareceu por um ano e voltou rasgado, saudável, tinha perdido 40kg. Sempre fiz esportes, mas ele me interessou com Jiu-Jitsu. Eu nunca assistia televisão, então não tinha menor noção do Jiu-Jitsu, nem MMA. Fui lá e foi uma coisa completamente diferente, nova, e uma coisa super difícil. Adorei a dificuldade que enfrentei e acabei ficando viciada.

 

Você vem de uma cidade pequena no Arkansas, roda os países atrás de novos treinos, inclusive já esteve algumas vezes aqui no Brasil, e se diz apaixonada pela nossa cultura. Como surgiu esse amor?

 

Ninguém, nem americanos, sabe muito do meu estado aqui no interior do país. Não tem cidades muitos grandes e é muito rural. Aqui tem natureza sem comparação, e gosto muito, mas só tem um tipo da gente. O povo é meio frio e tudo é longe, então todo mundo anda só de carro. No Rio, eu vi a misturada dos muitas nacionalidades, muita gente de toda classe e todo lugar juntos. Aprendi português pra entender a cultura, os novos costumes, e tudo. Valeu a pena demais. Me sinto mais aberta como uma pessoa agora. Se não tem razão pra ser feliz, os brasileiros criam. Se não tem festa ou amigos em volta, os brasileiros fazem festa e amizade na hora. É muito diferente, mas foi uma experiência que eu nunca ia trocar por nada.

 

Quantas cidades você já visitou?

 

Nossa, agora você está me fazendo contar (risos). Só para Jiu-Jitsu foi mais de 25 cidades e 63 academias no total. Mas tenho muita, muita sorte. Todo mundo abriu a academia pra mim, me tratou melhor do que eu mereço, passou o carro em mim e me lembrou por mais uma vez porque o nosso esporte é o melhor do mundo.

 

Com 21 anos e já na faixa marrom, na sua busca pelo Jiu-Jitsu, você já chegou a treinar com grandes nomes como Marcelinho Garcia, Ronaldo Jacaré, Bruno Bastos, Ricardinho Vieira, Cobrinha, Hermes França, Cyborg, entre outros. O que você acha que o Jiu-Jitsu mudou na sua vida?

 

Nem quero imaginar como minha vida seria sem Jiu-Jitsu. Treinando com esses professores em cima é sempre uma oportunidade incrível, mas também é uma lição de humildade. Eles são os mais famosos do Jiu-Jitsu, são lutadores profissionais, mas sempre estão com sorriso no rosto e sempre acham tempo para se dedicar com seus alunos e outros aprendendo Jiu-Jitsu, como eu. Isso não existe em outros esportes. Você nunca vai ver um jogador do futebol americano famoso usando o tempo dele pra dar aula para os juvenis no colégio. Mas esses lutadores fazem o esporte crescer porque eles estão sempre passando as técnicas pros outros, sempre ajudando, e sempre humildes.

 

Meus melhores amigos são do Jiu-Jitsu. Quando estou no meu estado, fico ou no meu quarto estudando ou no tatame, e só isso. Tem pessoas que conheço aqui, mas nada me faz mais feliz do que ver amigos num campeonato que não vi por um tempo, pra fazer lembranças e ver que tanto grande que é nosso mundo, também é muito pequeno. E finalmente, como você falou, eu sou novinha. Mas aqui no EUA, onde a gente mora, na faculdade, é normal pra sair muito da minha idade, comer só besteira, e perder o foco. O Jiu-Jitsu é preparação do corpo e da mente, e a disciplina que aprendi do esporte passou para meus estudos da medicina e me dar vontade sempre de aprender mais, de descobrir mais, e pra continuar progredindo.

 

O Jiu-Jitsu feminino vem crescendo muito e grandes nomes tem liderado esse espaço, como Luanna Alzuguir, Beatriz Mesquita, Kyra Gracie, Hannette Quadros... Você se espelha nelas?

 

Um pouco sim, um pouco não. São todas guerreiras e feras, são apaixonadas pelo esporte e são todas representantes ótimas do Jiu-Jitsu feminino. Mas o que separa a gente é que Jiu-Jitsu é a minha paixão, mas não é minha carreira. Eu não tenho como treinar duas ou três vezes por dia, eu estudo medicina de oito horas da manhã até cinco da tarde, treino depois o máximo que consigo, e volto estudar de novo antes de dormir. Amo Jiu-Jitsu, com toda força do meu coração, mas também amo medicina e tenho sonho de ser cirurgiã. Isso não muda que quero ser campeã mundial. Quero muito. Mas meu foco está em aprender, para levar as amizades que fiz e o que aprendo no Jiu-Jitsu na minha vida, mais do que as medalhas.

 

Como você vem fazendo a sua preparação física? Tem algum treino que você esta focando mais?

 

Sou a única mulher na minha academia, então pra mim a maioria da preparação física é pra treinar muito, e duro, com esses caras. Treino direto com meus professores todo dia e depois das aulas eu faço de três a cinco rounds de explosão. Odeio fazer (risos), mas é uma coisa que preciso. Sempre penso que sou a menos treinada, que sou a menos preparada, e assim que me mando treinar mais e mais.

 

O que você espera do Mundial Profissional de Abu Dhabi?

 

Com são dois pesos, vai ter mais meninas de pesos mais leve. Sei que a leve Luanna vai estar lá, a Bia também. Elas são um pouco menores, mas assim são muito mais rápidas. Também vão ter meninas com muito mais experiência, então tenho que focar no meu jogo mesmo. Não posso deixar uma delas fizer o que quiser, senão vou perder.

 

Qual você acha que será a maior pedreira que você vai enfrentar lá?

 

Todas são duras. De verdade, nem sei quem vai lutar no meu peso agora por que o site demora pra ser atualizado... É tanta gente! Mas nunca entro numa luta pensando que uma vai ser mais dura do que a outra. Ninguém tem nome no tatame. Qualquer hora, qualquer dia, qualquer um pode ganhar. Mas ao mesmo tempo, pode perder. Entro como se toda luta fosse ser a mais difícil, e tenho que ficar ligada.


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