Graduado à faixa-coral de Jiu-Jitsu, Romero Jacaré está vivendo um momento para lá de especial em sua vida. Aos 57 anos, Jacaré começou na arte suave aos onze anos de idade e não se cansa de agradecer a Rolls Gracie, que o formou faixa-preta. Comemorando o pentacampeonato mundial da Alliance, Romero concedeu uma entrevista exclusiva para a TATAME onde analisou toda sua vida no Jiu-Jitsu, a retomada do posto de número um da Alliance, falou sobre os problemas de saúde que teve e a importância de Rolls Gracie em sua vida, entre muitos outros assuntos que você confere abaixo.
Como você se sentiu ao receber o certificado de sétimo grau, antes das finais dos faixas-pretas, no Mundial?
Isso é tudo fruto de um trabalho de trinta anos de faixa-preta e a Confederação achou por bem me outorgar o sétimo grau, o que para mim foi uma honra por que eu sigo as regras da que a Confederação usa... Tem uns que graduam de três em três anos... Eu sigo o que a Confederação determina. Para mim realmente é um honra. Foi uma honra receber o sétimo grau das mãos de Fábio, que foi o meu primeiro faixa-preta e parceiro de todas as jornadas.
Como o Jiu-Jitsu entrou na sua vida?
Eu tinha 11 anos de idade e cresci em um ambiente muito difícil em Copacabana, rolava muita droga, muitas gangues, e fui criado do lado. Fui criado largado, na esquina, na praia, e o que mudou minha vida foi o Jiu-Jitsu e devo tudo isso ao Rolles, que foi o cara que mudou a minha vida e me deu essa chance de aprender Jiu-Jitsu e ser quem eu sou hoje. Por coincidência, no domingo fez 28 anos exatos que ele faleceu, no dia 28 de junho de 1982, e o dia em que eu ganhei a minha faixa preta e vermelha foi o dia em que nós fomos pentacampeões... É como se ele estivesse colocando a mão dele e abençoando lá de cima.
A Alliance sagrou-se pentacampeã mundial e venceu com larga vantagem de pontos. A que você atribui esse sucesso?
Modéstia à parte eu ajudei a construir a casa, fui um dos pioneiros no Jiu-Jitsu de competição, primeiro como competidor, representando a academia Gracie nos anos setenta, e depois com o crescimento do Jiu-Jitsu eu peguei minha faixa-preta, em 1982. Fui o último a pegar depois de o Rolles falecer, e após esse período o Jiu-Jitsu começou a crescer. O Carlinhos (Gracie) fez um trabalho muito bom de organização e o Jiu-Jitsu chegou nesse patamar que chegou.
Eu consegui formar uma geração de atletas imbatíveis, tanto é que conseguimos ganhar os dois primeiros Campeonatos Mundiais na década de noventa e após isso tivemos um problema que o pessoal se separou e eu mudei para os Estados Unidos, e esse período foi uma entressafra que durou muitos anos, mas eu nunca deixei de trabalhar com o Fábio, o Alexandre e os outros professores que ficaram e nunca deixamos de acreditar que a gente iria reerguer a equipe.
Demorou dez anos, mas hoje estamos com uma equipe muito sólida, tanto no masculino como no feminino, onde ficamos em primeiro lugar. Ficamos em segundo nos iniciantes e em terceiro no juvenil... Estamos sólidos em todos os aspectos, organizados, bem estruturados e os erros cometidos no passado, nós corrigimos e pretendemos não cometer novamente, e atualmente não tem nenhuma equipe melhor do que a nossa. Se entrarmos todos juntos, o pessoal que treina aqui comigo e o pessoal que treina comigo no Brasil, não tem pra ninguém.
E essa retomada do posto de equipe número um, como foi o processo?
Foi fruto de muito trabalho, organização, muito amor e muita dedicação de todos, através de uma boa estruturação. Hoje em dia, com os times enormes com nível muito alto, se você não tiver uma organização para ter uma equipe muito forte é impossível de você ganhar, e nós estamos ganhando com o dobro de pontos do segundo colocado, não é algo por acaso ou um acontecimento isolado, foi uma larga vantagem. Essa diferença é fruto de um trabalho bem feito. Na faixa-preta chegamos a seis de dez finais na faixa-preta e ganhamos cinco...
Qual o diferencial da Alliance?
Todos os atletas encaram o espírito de nossa equipe, nunca deixamos de passar para os mais novos a nossa tradição, o que fomos no passado, o que somos no presente e o que esperamos deles no futuro, então todos os atletas da Alliance encarnam esse espírito desde o atleta da faixa branca à preta, eles entram com o mesmo amor para competir, entendeu? Não adianta destacar um ou outro, a rapaziada toda está imbuída desse espírito de competir, respeitar a hierarquia... Vejo várias equipes que não tem hierarquia e não respeitam as tradições, o que pesa negativamente.
O que ainda te motiva depois de tantas conquistas?
O que me motiva é a vontade de estar com os alunos... Ano passado eu tive um ataque do coração, tive problemas renais e quase morri, e o que me deu força para sair dali foi o amor e a vontade que me move e que eu tenho pelo esporte. Eu gosto de ensinar, gosto de aprender, de estar no tatame, e o Jiu-Jitsu continua me renovando, é o que move a minha vida. Se você tirar o Jiu-Jitsu eu não sou nada. O que me move é o amor pelo Jiu-Jitsu, mas o meu amor pela Alliance é maior do que tudo. Amo o Jiu-Jitsu de uma forma geral, respeito todos os atletas e equipes, e o fato de eu ter ajudado a mudar a vida de algumas pessoas é o que me move. Nunca poderia imaginar que de uma esquina eu poderia ser a pessoa que eu sou... Vamos continuar enquanto Deus tiver nos dando força.