Com títulos no Cage Rage e Shooto japonês, Vitor Shaolin era considerado um dos melhores pesos leves do mundo até 2007. Uma lesão no olho, que forçou o faixa-preta a ficar de molho por um longo tempo, começou a atrapalhar sua carreira, e a mudança para os Estados Unidos e o foco na nova academia tomaram a agenda do lutador. Shaolin conversou com a TATAME e revelou que, após duas derrotas no Strikeforce, não acredita que continuará no show, e ele só volta a pensar em MMA no próximo ano, falou sobre aposentadoria, o crescimento do Jiu-Jitsu em Nova Iorque, o sonho de virar um “novo Dedé Pederneiras” e a evolução de José Aldo.
Você está vindo de derrota no Strikeforce. Como está a sua situação agora no evento?
Cara, agora mesmo eu estou não pensando tanto nisso. As lutas não foram como eu esperava, achei que poderia ter ganhado a primeira luta, mas acabou que não consegui, faltou aquele finalzinho. A segunda eu perdi mesmo, não consegui conectar nada do que eu treinei. Agora eu não estou tentando pensar muito nisso, estou mais focado aqui na academia, sem pensar muito ainda em luta.
Esse ano inteiro eu não me vejo lutando mais, pelo fato também de ter que administrar a academia, que é uma coisa que eu devia ter feito desde que eu comecei, e agora é a hora de fazer. A academia está indo super bem, graças a Deus, mas tem que continuar trabalhando aqui, focando na academia para dar tudo certinho. Então agora eu não estou pensando muito em evento, na próxima luta...
Mas você ainda tem contrato com eles?
Quanto ao contrato, a gente está trabalhando... Eu não devo ficar lá por muito tempo depois dessas duas derrotas, é mais esperar chegar a cartinha aqui de confirmação do evento. Até agora não recebi nada, então, para todos os efeitos, eu continuo no evento, mas eu acho que não devo renovar com o evento depois dessas derrotas... Estou esperando receber essa carta dizendo que eu não estou mais ligado ao evento.
Como está a sua academia? Como você está vendo o crescimento do Jiu-Jitsu nos Estados Unidos, especialmente em Nova Iorque?
Nova Iorque está crescendo muito em termos de Jiu-Jitsu, tem boas academias aqui: tem a minha, tem a do Renzo, do Marcelo, a Alliance... Então hoje em dia a competição é dura. A academia está indo bem, graças a Deus estou com um pessoal bem novo. Tem bastante faixa-branquinha aqui, bastante gente disposta a treinar, com a cabeça aberta, loucos para aprender, e estou aqui tentando motivar a minha academia. Eu trouxe o (Maurício) Shogun agora, trouxe o Anderson (Silva), que são pessoas com uma vasta experiência no Vale-Tudo, para poder dar uma movimentada aqui na academia.
Os horários estão lotados, graças a Deus, e agora eu só penso nisso, dou seis aulas por dia todo dia. Estou dedicado a fazer aquele faixa-branca tomar gosto por treinar, tomar gosto por levar mais a sério a luta, de repente em um futuro próximo mudar para o Vale-Tudo... Mas agora eu estou focando no Jiu-Jitsu, mais ou menos como o Dedé (Pederneiras) fez. Foi a base que ele deu de competição, de aprender a competir, de treinar... Foi o Jiu-Jitsu que me ensinou, então eu estou tentando fazer a mesma coisa aqui em Nova Iorque, com os ensinamentos do Dedé e da Nova União em geral.
Fazendo esse trabalho, passa pela sua cabeça pendurar as luvas no MMA e começar essa carreira de dono de academia e abrir outras filiais nos Estados Unidos?
Claro que penso. Eu tenho três filhos e tenho 32 anos, então estou novo ainda. Mas eu acho que é difícil você abraçar o mundo com as pernas. Nada decidido ainda, mas vamos ver como vai ficar esse ano e, se eu conseguir arrumar a minha academia de um jeito que eu possa ficar tranquilo aqui e voltar a treinar, é uma possibilidade. Senão, eu vou continuar dedicado à academia, que é uma coisa que eu me divirto, eu gosto e eu sei que é bom para o meu futuro, ter bons alunos, pessoas que gostam de treinar e que vêm aqui todo dia. Claro que eu penso. Ninguém luta para sempre, mas eu acho que não é uma coisa para decidir ainda. Eu vou decidir isso com calma, e tenho certeza de que eu vou decidir pelo que for melhor.
Até 2007, você era apontado como um dos melhores na categoria, com apenas uma derrota, mas nesses últimos anos você só venceu uma das últimas cinco lutas. A que você atribui essa queda de rendimento?
Eu acho que foi tudo. Acho que foi um pouco aquela lesão no meu olho, que me fez ficar para parado um tempo. Fiquei oito meses parado, sem treinar, sem fazer nada. Junto com isso aconteceu a mudança para os EUA, tentando me organizar nos treinos, viajando para poder passar uma semaninha no Brasil e poder treinar. Depois veio a abertura da academia, que foi uma coisa que eu tinha que treinar, mas tinha que dar aula também... Eu acho que juntou tudo, mas eu fiz tudo isso para mim, então não é desculpa.
A lesão no olho foi uma coisa que me chateou um pouco porque eu tive que ficar parado um bom tempo, a volta também foi complicada... Graças a Deus hoje eu estou bem, mas atrasou um pouco as coisas para o meu lado e acabou mudando um pouco o meu foco. Eu acabei tendo dois filhos depois disso, e hoje em dia o meu foco é a minha família, a minha academia. Pprimeiro a minha família, depois a minha academia. Como em 2007 a luta estava em primeiro lugar, hoje ela está em terceiro. Por isso que eu não sei por mais quanto tempo eu vou lutar. Não estou encerrando nada ainda, mas com certeza é uma coisa que, hoje em dia, eu só volto a treinar quando eu tiver chance de treinar antigamente.
Você acha que seria possível fazer um treinamento de alto nível, que nem fazia no Brasil, na sua academia de Nova Iorque?
Eu acho que eu podia passar um tempo no Brasil, sim, é uma coisa bem legal. Mas hoje, graças a Deus, tenho bons treinos aqui. Eu tenho uma amizade grande com os irmãos Jim e Dan Miller, e o time deles é bem sólido, tem uma academia de musculação aqui que arrebenta, que é onde eu faço a minha preparação física. Tem Wrestling, que é uma coisa que aí no Brasil tem, mas aqui tem bastante, então dá para treinar.
A Nova União é um time muito sólido, então aquilo ali você não vai ter em nenhum lugar. Sinceramente, peso leve no ritmo que tinha ali na academia, você não encontra em nenhum lugar. Aqui eu preciso de reforço, tenho que sambar para achar metade do que eu tenho ali. Fora que os caras lá já me conhecem, sabem como levar o treino, sabem treinar... Por isso eu prefiro fazer uma parte do treino aqui e, quem sabe, fazer uma parte do treino no Brasil para poder lutar de novo.
Você já está colocando os seus alunos para competir? Você pretende levar algum pessoal para o Mundial?
Cara, o ruim de Nova Iorque é aquela coisa: é muito longe da Califórnia. Uma viagem para o Mundial é, no barato, 1200 dólares só de inscrição, hotel, aluguel de carro, comida e tudo. Não é todo mundo que tem condição de ir. Eu tenho cinco alunos que estão indo, alguns que tem chances de chegar e trazer alguma medalha. Para lutar o Mundial, para mim, tem que ser alguém que esteja pronto para lutar o Mundial porque ele vai fazer seis ou oito lutas. Eu tenho alunos aqui que já estão me dando muita alegria. Não só em competição, mas alegria de dar um bom treino, de estar na aula, de ajudar o faixa-branca crescer.
Tem alguns alunos aqui que já estão entendendo a minha filosofia de dar aula, que é não pensar só em si mesmo, mas pensar no próximo também, fazer com que o próximo cresça, porque assim ele também vai ter um bom treino por muito tempo. Se você vier perguntar para o Dedé como foram os primeiros cinco anos de vida na academia, ele ia em todos os finais de semana para campeonatos acompanhando os alunos e hoje em dia estão indo para o UFC. É uma parte do processo. Eu estou confiando, botando os moleques nos campeonatos menores e, aos pouquinhos, a gente vai crescendo.
O seu plano é virar um “novo Dedé Pederneiras”? Você o vê como uma inspiração?
Com certeza. O Dedé é uma inspiração, um amigo, uma pessoa que eu adoro, e ele sabe disso. Eu acho que, igual ao Dedé, é complicado. Cada pessoa é diferente. Ele conhece meu gênio... Eu sou um cara tranquilo, mas não consigo ser como ele em algumas coisas. Ele é um cara muito tranquilo, eu sou um pouquinho mais ansioso para algumas coisas. Ele é ariano, eu sou pisciano. Ele é um pouco mais calmo em relação a esperar algumas coisas acontecerem, mas, com certeza, é um cara que é uma inspiração para mim, ele é um cara que eu admiro muito.
Eu acompanhei umas cabeçadas desde o começo de vida, de negócio, de academia, de direção, e hoje vendo ele com vários campeões e uma academia de sucesso, sendo respeitado no mundo inteiro como treinador... É um sonho, é uma vontade. Eu estou só no começo. Eu estou migrando, aos poucos, para essa coisa de deixar a luta e voltando para o Jiu-Jitsu, onde ele começou tudo. Acho que depois disso é fazer isso mesmo: fazer novos campeões, rezar para pessoas aparecerem aqui dispostas a treinar, a aguentar o ritmo de treino, que hoje em dia é muito profissional. O Dedé é um amigo, até hoje um conselheiro, um guru, um cara que, quando eu estou com uma dúvida, eu ligo e converso com ele bastante sobre essa parte de business, essa parte de negócio, essa parte que ele tem feito aí e que dão certo aí, o que dá certo aqui.
O maior nome da Nova União hoje é o José Aldo, um cara que você viu crescer. Quando você o via no começo, ainda desconhecido, você imaginava que ele poderia chegar tão longe?
Não, com certeza não. O José Aldo chegou assim como todo mundo chegou, chegou com coração, coragem... Ele aceitou lutar no lugar do Tony deSouza com apenas três semanas de treino, foi lá e pegou. Eu acho que o grande lance do José Aldo foi quando ele começou a se dedicar um pouco mais ao Muay Thai e sumir um pouco do Jiu-Jitsu. Com certeza ele teve uma melhora absurda, e foi nesse momento que ele acabou se complicando contra o Luciano Azevedo, mas depois disso ele conseguiu conciliar as duas coisas: tanto a parte em pé como a parte no chão. Depois dali, ninguém mais segurou ele.
Eu acompanhei todo esse crescimento dele. Na minha luta com o Jean Silva, ele ficou comigo lá na Inglaterra. Conseguimos arrumar uma luta para ele lá na Inglaterra, ele nocauteou dois e depois foi para o Japão, para o WEC... A gente viu tudo isso, e ele está aproveitando a chance ao máximo, sempre dando show, fazendo boas lutas... A galera da academia fez a parte da academia, mas a parte que ele fez de se dedicar, de saber o quanto a parte técnica era importante, a parte em pé, saber que ele tem esse talento que ele está mostrando hoje no Kickboxing...
Eu acompanhei tudo, e hoje vejo o cara aí com sucesso, o Dedé estando com esse cara é muito legal, porque foi um trabalho dos dois. Hoje tudo deu certo, o Dedé está podendo curtir os louros, podendo viajar, abrir a porta para outras pessoas... Eu acho que isso é a grande coisa. Ter uma pessoa dessas na academia ajuda a abrir portas, ajuda a mostrar o trabalho de outros atletas também, o que hoje em dia é uma coisa muito importante. No Pride, era só BTT e Chute Boxe. Hoje em dia a gente está no UFC, mas nada muito grande. Isso ajuda o Dedé a colocar outras pessoas e mostrar outros talentos.
Quer deixar algum recado para os seus fãs e para o pessoal que torce por você?
Eu queria agradecer todo o apoio da galera que sempre esteve do meu lado em todas as lutas. Foram 25 lutas. Esse ano eu vou pensar em uma coisa maior, que é a minha academia, que é uma coisa complicada, então eu acho que você tem que se dedicar ao máximo. Uma coisa que eu sempre tive na minha vida foi dedicação. Agora quero me dedicar à minha academia um pouco, e vamos ver ano que vem como vão ser as coisas.
A minha família cresceu um pouco esse ano, a minha filha Vitória nasceu. Eu queria agradecer a galera da academia, ao Dedé em primeiro lugar, à minha família, a toda a galera que eu acompanhei, que eu vi chegando, todo mundo que hoje está aí procurando o seu lugar ao sol, e graças a Deus, conseguindo seu lugar ao sol pelo talento que tem. Então eu queria agradecer a todos os meus amigos, inclusive os que estão aqui, como o Marcos Loro, o Danilo... A Nova União também está aqui, nessa parte fria dos Estados Unidos. Agora eu vou trabalhar em outro ramo, tudo em relação a luta, mas ano que vem eu vou ver. Eu vou dar o que falar ainda aí no Jiu-Jitsu e no Vale-Tudo em algum tempo da minha vida.