Se a família Gracie é considerada precursora do Vale-Tudo, Marco Ruas é sem dúvida alguma o primeiro lutador de MMA, já que foi o primeiro lutador a praticar o Cross Trainning. Ruas fez história no UFC ao sagrar-se campeão do torneio UFC 7, após derrotar três adversários no mesmo dia. Marco formou grandes lutadores, mas o que considera o único fiel e exemplo de lealdade até hoje é o seu pupilo Pedro Rizzo, a quem se emociona só de falar. Na entrevista exclusiva que você confere a seguir, Ruas conta como o Cross Trainning entrou em sua vida aos 12 anos de idade, comenta como era ser visto como creonte, tanto pelo Jiu-Jitsu quanto pela Luta Livre, elege seus favoritos no MMA atual, prevê um duro UFC Rio para os brasileiros entre outros assuntos que você confere abaixo.
Como foi o seu começo nas artes marciais?
Eu comecei aos doze anos em uma academia do meu primo, o Vinícius Ruas, que era professor de Judô, e nessa academia tinha Taekwondo e Capoeira. Eu não precisava pagar, fazia Judô com o meu primo, Taekwondo, e Capoeira com o mestre Camisa. Já fazia três modalidades, ainda moleque, então o cross tranning entrou na minha vida. Dali eu conheci um cara chamado Petit, que me convidou para dar uma confere em uma academia na Lapa, era o Santa Rosa, onde rolava um Boxe. Em uma semana na academia, bati no saco, o cara não me ensinou porra nenhuma, e pediu para eu botar a luva e entrar no ringue contra um negão enorme. Entrei, ele queria ver se eu tinha coração, gostou de mim e falou que iria me ensinar. No mês seguinte eu já estava competindo. Era uma academia que não era profissional, o cara não ligava pra mensalidade, e foi ali que eu aprendi que para você treinar um lutador, tem que ser assim, ver se o cara gosta de porrada primeiro, você tem que fazer o cara te provar que gosta de porrada, como fizeram comigo.
Se a família Gracie foi a grande responsável pela criação do Vale-Tudo, você foi o cara que deu o passo a frente para o desenvolvimento do MMA, já que foi o primeiro a realizar o Cross Trainning. Você tem noção de sua importância para o MMA moderno?
É difícil falar de você mesmo, isso foi há tantos anos atrás que é complicado de avaliar, mas as vezes paro pra pensar e reflito: “É mesmo cara, fui o pioneiro nas artes marciais mistas”, mas é complicado fazer avaliações de mim mesmo.
Como foi para você, naquela época em que cada lutador defendia sua arte marcial, buscar diferentes treinos? Você foi muito taxado de creonte?
Foi complicado demais. Eu fui taxado de Creonte não só pelo pessoal do Jiu-Jitsu como pelo pessoal da Luta Livre, pelo Eugênio Tadeu, por Carlos Brunocilla, pelo Hugo Duarte, todos eles me taxaram de Creonte. A galera da Luta Livre, infelizmente estava com a mesma mentalidade do pessoal do Jiu-Jitsu, eram meus companheiros de treino, mas quando eu vi eles estavam com a mesma mentalidade dos caras do Jiu-Jitsu, se eu fosse treinar com eles, não poderia treinar em outros lugares e isso foi muito complicado para mim. Eu queria treinar o Judô, até mesmo o próprio Jiu-Jitsu e quando eles ficaram sabendo ficaram revoltados. “Você está treinando Judô? Você não precisa disso, já está treinando a Luta Livre”. O pior foi quando eles ficaram sabendo que eu estava freqüentando o Oswaldo Alves, ficaram fulos da vida, mas eu não ligava pra isso, pois eu queria aprender, queria somar, se eu soubesse como os caras do Jiu-Jitsu lutavam, eu poderia tirar proveito.
Quais as diferenças que você encontrou no Jiu-Jitsu e na Luta Livre?
Transitando pelas duas modalidades pude ver os pontos fortes de cada uma e vi que eram lutas realmente diferentes, que a Luta Livre não era o Jiu-Jitsu sem quimono como muitos gostavam de falar. Na época, o cara da Luta Livre dava chave de calcanhar, chave de perna e torção de coluna, enquanto o lutador de Jiu-Jitsu priorizava golpes como o triângulo, o arm-lock, era um jogo diferente que a Luta Livre não aplicava muito. Eu aprendi a me defender daqueles golpes que só os lutadores de Jiu-Jitsu davam e as vezes não fui muito bem compreendido por isso. O pessoal da Luta Livre era uma panelinha pequena e todo mundo conhecia o meu jogo e eu conhecia o jogo de todo mundo, então eu não podia ficar restrito, tinha que visitar outros lugares e fui procurar aprender com o Oswaldo Alves, fui como inimigo até.
Você fez uma luta histórica com o Pinduka, considerado o melhor aluno de Carlson na época. Como foi o clima dessa luta? O que você lembra daquele dia?
O Jiu-Jitsu projetou essa imagem de inimigo em cima de mim e o clima estava bastante pesado, um clima de guerra mesmo. Foi um empate com sabor de vitória para mim, porque em volta do ringue só tinha Gracie, o Hélio, o Rickson e todos os alunos em volta. O que me deu nome e moral foi o fato de eu ter superado todo aquele clima adverso.Só para você ter idéia, o juiz era o Hélio Vígio, que gritava com o Pinduka. “Cabeçada no nariz”. E eu pensava, caralho o juiz está contra mim, que porra é essa? Mas é aí que entra o lado psicológico, pois eu botei na minha cabeça que ele não iria me ganhar, pois eu queria provar que era lutador e consegui superar tudo que estava contra mim naquele dia. Quando eu estava por baixo, aprendi a fazer uma fuga de quadril e botar a cabeça para fora do ringue para que eles mandassem a luta voltar de pé. Só que quando eu fazia isso, a galera do Jiu-Jitsu do lado de fora gritava: “Não foge não seu filha da puta” e me empurrava de volta para o ringue, e graças a Deus consegui levar a luta até o final e esse foi o empate que me lançou para o mundo.
Quem enche os seus olhos no MMA atual?
Anderson Silva e José Aldo Junior são os caras, assim como eu fiz parte da evolução do esporte no passado, eles estão evoluindo o esporte atualmente. Eu mostrei o caminho através do cross trainning e esses caras estão me superando, pois estão fazendo a mesma coisa só que com mais eficiência e a tendência das coisas é a evolução. Esses caras aperfeiçoaram o MMA, o Anderson é um striker que aprendeu a luta de chão, o Wrestling.
Qual a sua expectativa para o UFC Rio? Analise as três principais lutas da noite.
Acho que vai ser emocionante, mas não espero lutas fáceis para o Brasil não. Quanto ao Shogun, tudo vai depender das condições físicas que ele vai se apresentar, pois na primeira luta com o Forrest ele vinha bem, eu estava assistindo ao vivo nos EUA, mas acabou morrendo no gás e terminou finalizado. Se ele estiver no gás, leva, mas tem que estar no gás, pois o Griffin treina muito, essa luta vai depender do preparo físico do Shogun.
O Okami vai tentar derrubar o Anderson, mas o Anderson vai machucar ele bem e acredito em um nocaute do brasileiro. O japonês é um adversário duro, mas acho que não irá conseguir achar o Anderson no octógono.
O Minotauro está vindo de contusão no quadril e vai pegar um cara duro que vai evitar o jogo de solo. Não sei como o Minotauro se recuperou, como estão os treinos dele, então é difícil avaliar, mas que ele tem um coração de leão ninguém duvida. Torço pro Minotauro, mas é uma luta complicada pra ele, que vai ter que demonstrar muito preparo, trocar um pouco em pé e tentar levar a luta pro chão. Acredito que vai ser uma grande festa brasileira, mas não vai ser moleza não.