Rodrigo Minotauro emocionou o Brasil. Acostumado a batalhas épicas dentro dos ringues, o gigante baiano travou meses de apreensão e dúvidas, combatendo as lesões com três cirurgias delicadas nos joelhos e quadril. Na volta perfeita, em sua 40ª luta de MMA, a primeira no Brasil, desbancou o jovem em ascensão Brendan Schaub da maneira que ninguém imaginava, nem mesmo o próprio Minotauro: nocaute no primeiro round. Em entrevista exclusiva à TATAME, o peso pesado falou sobre as cirurgias, a recuperação, as dúvidas dos fãs sobre seu futuro no MMA, explicou porque não chorou após a luta e revelou o desejo de volta ao UFC no Japão, Canadá ou Brasil, e já tem um adversário em mente: Frank Mir.
Melhor impossível para uma primeira luta no Brasil, né?
O nocaute foi surpreendente. O pessoal esperava eu levar para o chão, mas eu o confundi um pouco. Entrava na perna e em cima, usando só a trocação, não usando a tática de botar para baixo. A minha cabeça estava mexendo bem também. Ele começou rápido ali, mas eu consegui esquivar legal. Foi maneiro para caralho. Que festa!
Antes da luta, você fez uma campanha #FinalizaMinotauro no Twitter, mas acabou vencendo em pé. A sua estratégia era realmente levar a luta para o chão ou você usou isso como uma estratégia para desviar a atenção do jogo em pé?
Eu estava pronto para a luta em pé e a luta no chão, eu estava pronto para tudo. Eu estava um monstro no chão, me sentindo super bem. Acho que foi o meu melhor camp de chão de todos, com o De La Riva, que foi para me ajudar. Ele ficou lá comigo o tempo inteiro. Também tive o suporte do Ramon Lemos, que é o treinador da Atos, que veio e me ajudou nos últimos dias, treinou comigo. Eu treinava com uns cinco faixas-pretas e todos bateram duas vezes, cara. Realmente, estava um absurdo no chão.
Eu chamei o Josh Janousek do Wrestling... Nesse camp eu realmente investi um dinheiro, trazendo um americano bom de Wrestling para poder estar bem e estava bem de Wrestling. Além do trabalho feito com o Dórea e o Erivan Conceição, que é um treinador de Boxe também. Trabalhei muito aquele Boxe de encontro.
Antes da saída para a luta, o Junior (Cigano) ficava me falando ‘vamos dar esse, vamos dar esse’. Soca, um jab e um direto. Eu botei o Schaub de costas para o Dórea, Rogério e o Cigano. E a galera gritando ‘manda agora, agora, agora...’ Quando ele gritou ‘vai’, eu tirei a cabeça e mandei (risos). Foi no automático ali, pegou na hora certa. Eu acho que ele pensou que eu fosse jogar na perna e eu fui jogar um upper ali. Ele não sabia que eu ia trocar tanto assim. O nocaute foi surpreendente.
Acabou a luta e todo mundo ficou emocionado, muitos chorando, mas você não derramou uma lágrima sequer. Você não chorou depois dessa luta emocionante?
Aquilo ali, para mim, foi um desabafo. Muita coisa aconteceu. Era um desabafo para todos aqueles que desacreditaram. Você viu que eu estava com cara de raiva, mas não era raiva do Schaub, porque eu não tenho raiva dele. Foi um desabafo a quem pediu para eu me aposentar, a quem comentou na imprensa com o Dana White se ele me aposentaria depois dessa luta... Eu não vou me aposentar.
Foi um desabafo às pessoas que duvidavam e não sabem o esforço que eu passei para poder estar lá, para poder conseguir depois de três cirurgias... Até quatro meses atrás, eu estava de muleta. Há um mês e meio atrás eu colocava a mão na minha perna e virava para a minha fisioterapeuta Ângela Côrtez e falava: ‘hoje tá foda, será que eu vou conseguir chegar lá?’ E ela falava: ‘vai, Rodrigo’. Ela foi uma pessoa que acreditou em mim. Meu preparador físico foi o Cláudio Pavanelli. Ela ficou comigo desde o começo e o Pavanelli nos últimos quatro meses.
Aquilo foi um desabafo, um desabafo para o meu ex-patrocinador, que eu ajudei, mas que cancelou meu patrocínio um mês e meio antes da luta... Foi um desabafo para todos aqueles que desacreditaram, acharam que eu fosse entrar lá para perder. Você vê que eu entrei com raiva ali. Mas eu não tenho raiva de oponente, eu tenho raiva das pessoas que fazem isso. Eu acho que as pessoas têm que acreditar mais.
Você mais uma vez mostrou ao mundo que é o Rocky Balboa, chegando desacreditado e, pegando gigantes, triunfou...
Eu gosto de desafio. É só parar e focar três meses, que nem eu fiz agora. Tenho uma coluna em um jornal, duas academias com alunos... Além de treinar, a gente faz muitas outras coisas também. Eu tenho praticamente 15 filhos na minha academia e eu tenho que cuidar da alimentação, luta de um, do outro... É difícil. Mas, se eu parar três meses para treinar, eu fico bem. Parei um pouquinho os meus compromissos, mas, mesmo assim, teve muita coisa que eu faço além de treinar. Mas, nessa luta, eu me dediquei legal e o trabalho foi bem legal, resultado de três meses treinando.
A gente te acompanhou e foi clara a sua evolução desde o seu primeiro treino. Você ainda mancava, fazia fisioterapia e alongamento com a Ângela por uma hora antes de começar a treinar. Duas semanas antes da luta você já estava muito melhor. Quão importante foi o trabalho da Ângela e do Pavanelli?
Foi importantíssimo. Além do trabalho com a Ângela, além das sessões de fisioterapia, ela é uma pessoa super positiva, fez um trabalho psicológico grande. No dia que eu cheguei lá, ela falou para mim: ‘olha só, para a gente trabalhar, você não vai fazer fisioterapia para se curar. A gente vai fazer fisioterapia com uma meta. Qual é a sua meta?’ Aí eu sentei na clínica dela na Barra da Tijuca e falei: ‘a minha meta é voltar a lutar’. E ela falou assim: ‘me dá uma data’. Aí eu pensei, e parece loucura, mas eu falei que queria lutar lá para outubro, dezembro. Aí ela falou: ‘ah, beleza. Até dezembro a gente tem bastante tempo’. Eu falei: ‘mas, o meu sonho é lutar no UFC Brasil’. Ela olhou e falou ‘é o seu sonho?’, e eu respondi: ‘é o meu sonho’. Ela virou e falou: ‘então a gente vai realizar o seu sonho’.
Eu falei que o médico tinha que fazer um trabalho mais lá para frente, e ela virou e falou ‘eu confio, você confia em mim? Eu confio em você’. Eu sabia que agosto estava em cima, que eu ia ter pouco tempo para treinar, achei que não ia conseguir treinar bem para essa data, não senti confiança para essa data. Ela falou: ‘Rodrigo, se você tiver um objetivo, a gente trabalha em cima desse objetivo e você consegue se recuperar. Sem objetivo, sem data, a gente não consegue recuperar’.
Gradativamente a gente foi tirando a muleta e ela veio e me falou que ia me apresentar um cara que ia me deixar bem fisicamente, que é o Pavanelli. Ele foi lá para casa, me viu saindo de muleta da piscina, quando eu não podia andar ainda. Ele fez trabalho por duas semanas na piscina, só coisas dentro da água. Depois a gente passou para a musculação. Eu fazia pouca musculação, fazia um aparelho ou outro. Fazia musculação de muleta. Saía entre um e outro, fiz o fortalecimento de um mês e meio. Ele praticamente me preparou de muleta por um mês para eu poder voltar a treinar. Eu tive muita perseverança também. Um dia após a cirurgia. Eu procurei um fisioterapeuta da clínica e fiz meia hora de bicicleta de braço. Me apoiei em uma perna só, e fiz meia hora no dia seguinte da cirurgia.
Os médicos ficaram loucos. O preparador também. Eu falei ‘me segura’, porque eu estava operado, mas tinha muita perseverança. Eu estava querendo voltar. Faltando um ou dois meses eu falei: ‘Ângela, não vai dar. Está chegando perto, eu ainda não estou rápido com a minha perna, não estou flexível’. Isso foi no mês anterior. Ela me perguntou: ‘como você está?’ Eu falei ‘eu estava mancando, andando de muleta ainda’. Aí ela falou: ‘mês que vem você vai estar melhor’. E eu estava aguardando para falar com o pessoal do UFC se ia dar ou não.
Faltando um mês para a luta, ela me perguntou se eu estava melhor, e eu falei ‘está melhor, mas não está bem melhor’. E ela falou ‘mês que vem você vai estar bem’. Então foi totalmente planejado. Faltando 21 dias para a luta, eu estava 100%. Eu consegui chegar a 100% faltando três semanas para a luta. O Pezão chegou e foi fundamental, o Cigano chegou e eu pude me testar legal. Faltando três semanas para a luta os caras chegaram e fizeram a parte final do meu treinamento. O começo do meu treinamento, a base toda foi com o Feijão, que me ajudou muito. E, no final, o Pezão e o Cigano me ajudaram bastante.
Você disse na coletiva que era a primeira vez que estava indo para o UFC estando 100% fisicamente. Você estava realmente 100%? Não passava pela sua cabeça algum medo de ter apressado a sua recuperação, principalmente porque você estava lutando com um garoto novo, sem lesões?
Sempre tem aquele pensamento de dúvida na cabeça. ‘Será que vai dar?’ eu estava com isso. Nas últimas semanas eu fiquei concentrado, eu subia para a casa de um amigo meu, que trabalhou nesse negócio do Internacional comigo, e eu fiquei concentrado na casa dele. Eu estava com medo, mas estava confiante, com a cabeça boa, estava bem treinado. O garoto era duro, eu sabia que ele era duro, mas eu treinei muito bem, estava confiante. Só não sabia o que podia dar...
Eu sabia que o meu chão era melhor e eu sabia que podia trocar com ele, que eu bateria nele em pé. Eu não dei passo para trás nenhum. Ele veio e eu fui para cima dele. Se eu não ia para a perna, eu ia para o tronco ou batia nele, ia para cima. Ele que andava para trás, eu não dei um passo para trás. Eu forcei a luta o tempo inteiro, ele ficou andando para trás no cage, que era exatamente o que eu queria fazer: apertá-lo num canto, bater e entrar na perna. O bater, o entrar e bater foi o que mudou. Eu tinha outras opções de luta. Me senti bem.
Qual é a sua expectativa agora para o futuro no UFC? O seu desejo é, quem sabe, enfrentar o Frank Mir, já que ele não tem luta marcada e vocês iam se enfrentar novamente no passado?
Eu gostaria de lutar com o Frank Mir, tenho vontade de lutar no UFC Japão. Eu gostaria de lutar pelo UFC Canadá, que vai ter no final do ano. São boas opções. Lutar com o Frank Mir é uma opção que eu adoraria na realidade. Estou motivado a lutar com ele.
Fique à vontade de deixar o seu recado para os fãs que acreditaram em você, que sabiam que você daria a volta por cima mais uma vez...
Para aqueles que acreditaram e os que não acreditaram, porque eu sabia que até as pessoas que não acreditaram iam torcer ali. Eu vim de derrota por nocaute, vim de três cirurgias no corpo, cirurgias que não foram simples, é compreensível... Foram três cirurgias, no quadril, joelho, no cruzado anterior. Para os que acreditaram ou não acreditaram em mim, eu aceitei a luta em pouco tempo, mas queria dizer para todas as pessoas: ‘I’m back’. Estou de volta. Eu ainda tenho muita lenha para queimar e quero estar representando o Brasil mais vezes e quero lutar no Brasil novamente. Foi maravilhoso lutar no Rio, foi maravilhoso lutar em casa. Gostaria lutar aqui novamente, então eu não vejo a hora do UFC voltar para o Brasil porque eu quero estar aí representando.
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