Nada como um dia após o outro. Ou melhor, como um campeonato após o outro. Derrotada na final do Mundial por Michelle Nicolini, a faixa-preta de Jiu-Jitsu Kyra Gracie deu o troco ao vencer sua algoz neste domingo, pelo ADCC, disputado na cidade de Nottingham, na Inglaterra. Em entrevista exclusiva à TATAME, direto da Terra da Rainha, a tricampeã do ADCC falou sobre a revanche contra Nicolini, mudanças em seu treinamento e planos para o futuro.
Esse foi o seu terceiro título do ADCC. Teve um sabor especial vencer a Michelle Nicolini na final, já que você perdeu a final do Mundial para ela?
Com certeza teve esse sabor especial, sabor de revanche. Ela realmente é uma atleta muito boa, que vem crescendo a cada campeonato. Você vê que ela está chegando sempre, foi campeã mundial agora esse ano, tem a guarda muito boa, então foi ótimo. Eu estava precisando dessa vitória. Eu bati na trave no Mundial, e não aguentava mais o segundo lugar (risos).
Você é a maior campeã do ADCC. Como é isso para você, que já fez história lutando de quimono e agora está fazendo sem quimono?
É, eu acho que é muito bom ter o meu trabalho reconhecido. Acho que as pessoas olham para mim e acham que não é um prêmio tão forte, não sei. ‘Ah, essa patricinha aí não treina (risos)’. Mas, poxa, eu treino muito. Esse meu treinamento foi muito forte, treinei com os Mendes (Rafael e Guilherme) em São Paulo, tomei seis pontos no rosto semana passada, então foi muito sacrificante para eu estar no ADCC. Eu perdi todos os meus patrocínios depois do Mundial, então realmente eu vim para cá com muita vontade de vencer.
Foi por causa da derrota?
Não, meu contrato acabou. Agora eu só estou com a Atama. Então, muita coisa aconteceu. Às vezes você acaba perdendo a motivação e, na verdade, foi isso que me motivou ainda mais para vir aqui e conquistar o título.
Você foi treinar com os Mendes duas vezes, mas o que mudou no seu treinamento no Rio de Janeiro para o ADCC?
Na verdade, eu treinei muito duro para o Mundial também, mas infelizmente eu acho que o que me prejudicou foi uma gripe que eu peguei uma semana antes, mas o mérito é todo da Michelle. A gente fez uma luta duríssima. Isso é bom também porque você vê que o nível do feminino está crescendo a cada ano. A nova geração está chegando, e um dia uma ganha, no outro dia a outra ganha, então o nível está muito alto e isso é muito bom para o esporte. Acho que quanto mais o tempo vai passando, mais mulheres virão mais duras, e eu espero que mais e mais a gente cresça com o Jiu-Jitsu feminino, porque esse é o meu objetivo principal.
Você não precisa provar mais nada com tantos títulos. O que ainda te motiva? Por que continua querendo competir em alto nível com as meninas?
Então, eu sou uma pessoa muito competitiva. Eu nasci fazendo Jiu-Jitsu, eu vou morrer fazendo Jiu-Jitsu, eu quero realmente servir de exemplo hoje em dia para os meus alunos, para a nova geração da família e para todas essas meninas que querem começar a competir ou a praticar o Jiu-Jitsu. Eu quero realmente ser o exemplo para essa nova geração. E eu tenho 26 anos. Até outro dia a galera falou: ‘Kyra, você é veterana’. Calma aí, eu tenho 26 anos. É porque eu peguei a preta muito nova, então acabo parecendo mais velha. Eu acho que ainda tem bastante estrada pela frente, muitas edições do ADCC ainda (risos).
Muito ADCC, Mundial, Pan...
Poxa, muita coisa ainda, muita estrada. E é bom que, como diz o Renzo, ‘filha, a melhor coisa dos campeonatos é toda essa experiência que você adquire de ganhar, de perder, de passar por situações, como aconteceu comigo, que eu peguei um braço ali estalando no pau, e você sair, conseguir vencer a luta’. É isso que eu vou passar para os meus filhos, para os meus netos, para a nova geração da família. Então, tudo que eu faço aqui dentro, independente da vitória ou da derrota, é uma coisa boa. Eu sempre ganho para poder passar para as novas gerações.