“O bom filho à casa torna”. Com essas palavras, Rudimar Fedrigo anunciou o retorno de José Pelé Landi-Jons à equipe Chute Boxe, onde o striker construiu grande parte de sua carreira. Depois de dar seus primeiros treinos na equipe curitibana, Pelé bateu um papo exclusivo com a TATAME e relembrou os principais momentos da sua carreira, as lutas históricas que já travou nos ringues, a rivalidade com Jorge Patino Macaco e muito mais. Confira:
Você não estava em uma boa sequência de resultados. O que você mudou para poder voltar às vitórias?
Cara, estou trabalhando. Desde que eu fui morar no Canadá eu estava atrás disso, e agora eu estou colhendo. Estou com gás. Me sinto como se tive 27 anos, me sentindo bem forte.
Essa sua última luta foi a única que passou do primeiro round. Como você vê essa luta?
Para mim é muito difícil porque eu criei um nome ao longo desses anos, então se cria uma expectativa sobre o atleta que eu vou enfrentar. Ele busca os melhores treinadores, e fica duro eu combater hoje em dia. Mas, ao mesmo tempo, eu adquiri outras “manhas”, outros caminhos para eu poder chegar à glória. Mas é bem difícil quando eu pego um cara duro, no extremo da forma física. No dia que vão lutar comigo, estão no ápice. Cinco minutos é muito rápido, muitas vezes passa, mas eu estou treinando para liquidar as minhas lutas em menos de um minuto. Pena que muitas vezes não posso ir com um ímpeto porque eles estão em um nível bem acima, evoluídos. Do jeito que está o esporte, tem que ter um certo cuidado. Mas eu me entrego, me entrego todo.
Acha que o fato de ser um cara muito experiente e pegar atletas dessa nova geração torna a luta ainda mais difícil?
Eu acho que é por causa do nome. É o grande sonho deles, né? Se eles ganharem de um cara como o Pelé, eles estão com bem no esporte. Então é tudo ou nada, o bagulho fica louco.
Quanto a sua experiência pesa em uma luta dessas?
Eu acho que 95%.
Depois do evento, o Macaco foi ali e te desafiou. A luta vai mesmo acontecer?
Eu fiquei surpreso. Não entendi. Na hora é muita informação, então eu fiquei perdido. Mas ele falou da ‘nega’, e eu não sei que ‘nega’ é essa. Não tem ‘nega’. Eu ganhei a primeira, ganhei a segunda e vou ganhar a terceira. É uma pena. Eu não queria esse envolvimento com ele, até porque ele está na escola que me projetou. Eu me criei nas pilastras da Chute Boxe, então vou estar muito indignado na noite dessa luta, os sentimentos se afloram. Já era ruim de ele me segurar. Agora, com mais essa, que vai marcar a minha trajetória como atleta, ele não vai suportar.
O que você vai sair de diferente com relação às lutas de 1996 e 1997?
Olha, eu posso ver um começo eletrizante. Realmente, ele é um atleta fabuloso, então tudo se pode esperar. Vai ser briga de homem mesmo, vai ser coisa braba. Quem estiver nesse evento, vai ser presenteado por acompanhar um momento histórico.
Entra uma coisa pessoal nessa luta?
Entra, com certeza. A partir do momento que eu pensei que era uma coisa que não tinha mais motivo, e ele me trouxe à tona. Ele está lastimando meu brio. Eu vou voltar com todas as minhas energias para chegar à gloria.
Você acha que falta um pouco desses desafios nessa era profissional do MMA?
Eu tive que mudar o meu estilo para isso. Eu não quero falar mal dos outros. Quando a gente estiver no ringue, ou quando a gente tiver virado um de frente para o outro, a troca vai ser da minha energia com a dele. Eu vou engolir a dele, mostrar o meu verdadeiro lugar. Eu fico chateado, estou indignado com ele e com todo aquele que apoiar a atitude do Jorge. A gente tinha conversado, até rezamos juntos, achei que tinha ficado na história daquele jeito. Agora, se está faltando alguma coisa pra ele, que venha buscar. Vamos ver o que ele vai levar.
Você acabou de completar 18 anos de carreira. Que balanço faz dessa trajetória?
O que eu posso te falar dessa carreira é que eu estou com 45% da estrada, tem muita coisa pela frente ainda. Eu sou um amante do MMA antigo, sou do tempo que os meus ídolos eram o Rickson, o Carlson Gracie, Helio Gracie, Valdemar Santana, Diabo Louro... Apesar de ser um rapaz novo, eu cultivo aquele lance de 1940, da orla carioca, onde os capoeiristas se enfrentavam com os boxers e chegava aquela galera Gracie. Quando eu falo até que idade eu vou lutar a turma aqui em casa fica meio assustada porque eu gosto e amo mesmo, vou mostrar que eu não vim só para fazer peso aqui na Terra, vim para contar uma história. Eu fiquei muito chateado com a TATAME na última edição (outubro), que relatou o histórico do Vale Tudo e esqueceu de citar o meu nome. Eu sim que transformei o Valeu Tudo, onde deixei, com o meu estilo irreverente, o esporte como é. Não me colocar na história já é um erro.
Você venceu muitas lendas no MMA e no Vale Tudo. Qual combate se lembra com mais gosto?
Eu gosto de todas. Teve algumas até que perdi, mas perdi tão honrosamente que eu não poderia deixar de tocar nelas. Johil de Oliveira, o Jorge Patino... Eu acredito que essa luta esteja nas 10 melhores na história do MMA. Eu gosto de todas, sou ciumento com todas (risos). Eu defendi com unhas e dentes.
Lamenta não ter conseguido render tão bem no Pride?
Eu achei que eu lutei bem com o Carlos Newton, mas ele realmente levou o meu braço para casa. Com o Daijiro Matsui eu tomei um cartão amarelo e tinha que nocautear. Tinha que desligar o cara, senão eu perdia a luta. Mas eu lutei super bem, fiz um Jiu-Jitsu legal. Nunca ninguém nocauteou o Daijiro Matsui. Foi uma bela experiência. São coisas que acontecem na vida. O Senhor quer que seja assim, e a gente tem que suportar tudo, na crença dele.
Acha que a sua carreira teria sido diferente se você tivesse vencido no Pride?
Não era uma coisa controlada por mim. Existia uma política, ninguém sabe as coisas que acontecem nos bastidores. Você não luta só dentro do ringue. Muitas vezes você luta contra o oponente e contra a entidade... É complicado. Mas amo o Japão, amo a organização do Pride, só que muitas vezes a política não bate. A entidade necessita do homem-show. Ele escolhe: vai ser esse, agora vai ser esse... E eles vão construindo.
Que entidade você se refere?
Qualquer uma. Um UFC, Pride, Bellator... Todos têm sua política.
O Anderson Silva, hoje o número um, sempre te apontou como um dos maiores de todos os tempos. Como vê isso?
Eu não acho nada, porque isso tudo foi construído aqui. Era só mato quando eu comecei essa estrada. Todos vinham falar alguma coisa de mim, não desmerecendo, vejo de uma forma respeitosa. Eu não vejo algo a mais.
No começo da carreira do Anderson, imaginava que ele pudesse chegar tão longe?
Lógico. Esse era o nosso sonho. Éramos um grupo de 12 a 13 pessoas e foi feito um trabalho desde criança para sermos os melhores samurais do planeta. Não vai ser diferente. E por aí tem mais demanda. Foi construído com sangue e suor. Curitiba está sempre pronta para soltar mais um no mercado.
Como viu, entre 2006 e 2007, que os grandes nomes deixaram a Chute Boxe? Acha que o time perdeu um pouco da essência?
Eu fiquei muito chateado, não gosto de ver a escola assim. Mas a equipe está com uma boa direção. Eles têm dois novos atletas, o Jamanta e o Coruja, e acredito que esses dois atletas podem conduzir a Chute Boxe de novo ao topo do mundo. Falta só um pouco mais de tempo e trabalho.
Como vê a galera da equipe hoje, como Wanderlei e Shogun, entre outros?
Eu vejo bem. Todos eles moram no meu bairro. O bairro, na verdade, é meu. Esses dias tomei café com o Ninja, conversamos bastante sobre luta. Está tudo maravilhoso. É Curitiba, a turma é nossa. A direção técnica é do Rudimar, mas a gente estava sempre conduzindo para chegar aonde a gente chegou.
Na época do Pride, o auge da Chute Boxe, teve a rivalidade com a BTT...
São momentos diferentes. Era um momento de troca de força, de mostrar que não era só tradição no Rio, que Curitiba também era um centro grande. Nós conseguimos muitas coisas. Tivemos que rever muitos erros que foram cometidos, mas houve uma batalha. A gente tinha que passar pela batalha, senão nunca chegaríamos à glória.
Você acha que acabou atrapalhando um pouco o fato do Rudimar ter focado mais nessa carreira política, se distanciando do dia a dia da Chute Boxe?
Sempre soube que ele ia tomar esse caminho paralelo, foi uma coisa que ele sempre fez. A gente foi criado colando cartazes e toda aquela correria que a política faz, a gente sempre foi ligado a isso, e não seria diferente. Mas o Rudimar está na assembléia, mas está na academia também.
Você viveu o esporte em todas as suas fases: a explosão do Vale Tudo na década de 1990, a proibição, a transformação em MMA e a moda do UFC no Brasil. Como foi isso?
Foi uma coisa já prevista também pela família Gracie, a ideia do octagon. Já era uma coisa prevista, só que as pessoas que não estavam no “mundo”, jamais poderiam ver a forma que ia tomar. Nós sabíamos que íamos ter grandes atletas, grandes astros. Quem construiu a sua própria história consegue viver disso. O negócio é que não precisa crescer lá nos Estados Unidos para terem que apoiar. O Brasil é um país tão rico em tudo. A gente está ditando a moda lá fora. Antes você falava que era brasileiro e era tido como um índio, um macaco. Hoje em dia, você fala que é brasileiro e o ambiente fica com uma energia maravilhosa.
No começo da sua carreira as lutas eram sem regras, sem tempo, sem luvas. Sente falta disso?
Eu não sinto falta, não... Aquilo precisava existir para se tornar o que é hoje. Eu estou muito contente com os três rounds de cinco. Está muito bem assim.
Acha que seria possível o esporte chegar ao nível que está hoje se continuasse no formato que era antes?
Não, impossível. Não tem como você. Não tinha como o pai levar o filho para aquela carnificina. Sangrava, não tinham os exames... Aliás, gostaria que os eventos nacionais exigissem dos seus lutadores exames de sangue, tomografia... Eu sei que é difícil, mas se o atleta não se organizar dessa forma, ele não poderá entrar no ringue. Vamos fazer bem direitinho para ficar uma coisa organizada.
Como vê a evolução dos eventos nos últimos 20 anos?
Mudou muito. O Kumite, por exemplo, foi super organizado, “clean”. Foi 10, bate eventos que lutei nos Estados Unidos e Canadá, tranquilo. Brasileiro sabe fazer evento.
Você está chegando aos 40 anos. Tem uma previsão de quanto tempo mais fica na ativa?
Eu morro de medo só de pensar como vai ser, quando vou ter que pedir a minha aposentadoria. Eu ainda me sinto com corpo de jovem, mente de jovem. Sou super do bem, brincalhão. Eu amo ser lutador. Não tem nem como falar isso porque eu não consigo ver.
Se sente bem para competir em alto nível por mais dez anos?
Na verdade, estou em constante evolução, essa é que a verdade. Eu ainda tenho coisas a serem conquistadas.
Tem algum sonho dentro do esporte que ainda não tenha conseguido realizar?
O meu sonho é escrever a história para ficar para o resto da vida. Esse é o meu objetivo, eu estou lutando para isso.
O que acha que precisa fazer para alcançar isso?
Eu vou ganhar mais lutas agora. Eu estou dando uma renovada no meu cartel, reconstruindo ele. Eu quero fazer o triplo que já tenho, quatro ou cinco vezes.
Depois de pendurar as luvas, pensa em continuar ligado ao esporte?
Sempre, cara. Tenho a minha academia em Curitiba, inclusive abri só para eu treinar, mas a procura foi legal e eu tive que abrir. Vou começar a soltar os meninos da minha escola. Estou feliz, estou curtindo. O Senhor vem dando graças à minha vida há dois anos direto.