Coluna Mente Forte: os 'pecados capitais' de Ronda Rousey e Amanda Nunes após o UFC 207

Tatame

24/01/2017 09:35

"Deus e o Diabo estão lutando ali; e o campo de batalha é o coração do homem". Fiódor Dostoiévski, Os irmãos Karamazov.

Cat Zingano: "Ronda foi forte o suficiente para admitir que estava tendo pensamentos suicidas".

Acredito que essa declaração de Cat Zingano sobre a condição emocional de Ronda Rousey tenha colocado em alerta não só o círculo do MMA, mas também muita gente envolvida direta ou indiretamente com esse assunto ou situação. Os leitores que acompanham as matérias da TATAME, viram o quanto é delicada e próxima de todas as pessoas com essa condição emocional.

Erwin Stengel (1902-1973), psiquiatra Britânico, advertiu que:

"A ubiquidade do suicídio faz com que esse pareça ser inevitável. Mas é difícil ser derrotista quando partimos de dados estatísticos para a realidade individual. Observando o ato suicida, numa perspectiva de retrospecção como o clímax de uma crise pessoal, não se pode deixar de sentir que quase todos poderiam ser evitados".

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Ronda sofreu mais uma dura derrota, desta vez para Amanda Nunes (Foto Brandon Magnus / Zuffa LLC)


Os dados estatísticos sobre o suicídio, segundo estudo da OMS (Organização Mundial de Saúde), mostram que 804 mil pessoas cometem suicídio todos os anos (taxa de 11,4% de mortes para cada grupo de 100 mil habitantes do planeta). O Brasil é o oitavo país em número de suicídios. Em 2012, foram registradas 11.821 mortes, sendo 9.198 homens e 2.623 mulheres (taxa de 6,0 para cada grupo de 100 mil habitantes). Entre 2000 e 2012, houve um aumento de 10,4% na quantidade de mortes - alta de 17,8% entre mulheres, e 8,2% entre os homens. O país com mais mortes é a Índia (258 mil óbitos), seguido de China (120,7 mil), Estados Unidos (43 mil), Rússia (31 mil), Japão (29 mil), Coreia do Sul (17 mil) e Paquistão (13 mil).

Diante deste cenário nada motivador, vem a pergunta: o que é o suicídio?

– Segundo o Caderno Informando Para Prevenir - Associação Brasileira de Psiquiatria, Comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio, 2014: “O suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte, de forma consciente e intencional, mesmo que ambivalente, usando um meio que ele acredita ser letal”.

Por quê as pessoas atentam contra a própria vida?

- Em função da complexidade do tema que leva o ser humano ao ato de dar cabo da própria vida, algumas causas foram propostas em 1910, em relatos de estudos na ocasião do simpósio no Instituto Psicanalítico de Viena. Adler e Stekel enfatizaram algumas causas do suicídio: Adler relacionou às implicações de inferioridade pessoal, desejo de vingança e agressão antissocial; Stekel vinculou o suicídio às frustrações e culpa de atitudes e “movimentos repetitivos de insucesso”. Ainda afirmou que ninguém se mata antes de querer matar alguém ou desejar a morte de alguém. Concluindo as discussões neste simpósio, Freud sugeriu que o suicídio não poderia ser melhor compreendido até que se soubesse mais a respeito dos intrincados processos.

Esses dois últimos processos, luto e melancolia, atualmente são bem compreendidos pelos profissionais da psicologia e psicanálise. O luto é um processo que se inicia após o rompimento de um vínculo e estende-se até o período de sua elaboração. Inevitavelmente, todos que sofrem alguma perda significativa passam por esse processo. Em alguns casos, os enlutados apresentam sentimento de desinteresse, desvalia generalizada e crônica que, sem ajuda profissional, dificilmente passam pelas cinco fases do processo de luto a saber: a Negação e/ou Entorpecimento, a Raiva/Protesto, o Desespero, a Depressão e, por fim, a Aceitação, que culmina com a Elaboração. Porém, estas fases podem ou não seguir essa ordem cronológica.

Sobre a melancolia, Sigmund Freud relata que: “Na melancolia, as ocasiões que dão margens à doença vão em sua maior parte, além do caso nítido de uma perda por morte, incluindo as situações de desconsideração, desprezo ou desapontamento, que podem trazer para relação sentimentos opostos de amor e ódio.” (Freud, 1920, p, 256).

Com isso, podemos concluir que alguns atletas, ao sofrerem sucessivas derrotas, podem não ter concluído o processo de luto em suas cinco fases, entre uma derrota e outra. Perder um título importante, um cinturão e o status agregado leva o atleta a pensar que está em um labirinto de dimensões infinitas. Esta crença é um dos sinais do perigo que o espreita. Fugir da realidade não é a melhor resposta para a sociedade.

Existe uma falsa crença de que a bipolaridade é doença e prejudicial. Eu afirmo que, em níveis razoáveis, ou seja, naturais, é saudável e benéfico, tal qual a “natureza bipolar equilibrada” que habitamos, a terra. Haja visto que profissionais experientes passaram por experiências equitativas de vitórias e derrotas, e nem por isso são perdedores. Contudo, observamos, antes e após a luta entre Ronda Rousey e Amanda Nunes, relatos e atitudes extremas de ambas atletas: Ronda, sentimentos de desvalia, “ideação suicida”. Amanda, atitude de euforia, “vaidade excessiva”. É comum atletas apresentarem esses quadros citados acima, porém, para situações extremas, sugere-se que as equipes façam acompanhamento e/ou aconselhamento profissional com psicólogo esportivo, pois tanto a vitória quanto a derrota estão ancoradas nos detalhes da vida cotidiana. Se tratando das melhores equipes de MMA do mundo, o prejuízo pode ser muito grande.

Todavia, o primeiro passo deve ser dado pelo técnico/treinador. É ele que ocupa a função de líder da equipe e, em muitos casos, representa a figura do pai para o atleta. Com o intuito de auxiliar nas demandas diárias sobre trabalhos com grupos esportivos, eu compilei anos de trabalhos com equipes esportivas no Livro Baú do Marujo - Psicologia do Esporte e Dinâmica de Grupos, para técnicos e treinadores. Em breve estará disponível!

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