Coluna do Ítallo Vilardo: o 'treino de competição' e a importância de sempre atualizar seus métodos

Tatame

23/03/2017 09:50

Desde quando eu iniciei no Jiu-Jitsu, ouço falar de “treino de competição”. Lembro que era uma honra ser convidado para fazer parte desse treino… Era o momento em que você se sentia atleta de verdade, competidor. Todos seus esforços foram compensados e o mestre te chamou para se colocar à prova! Nunca esqueço o meu primeiro treino de competição, eu ainda era faixa-azul e estavam presentes Marcelinho Garcia (ainda faixa-azul) Ricardinho Vieira e Fernando Tererê (ainda faixas-roxa) e os faixas-preta Rodrigo Comprido (campeão mundial absoluto naquele ano), Roberto Traven, Leozinho Vieira, meu mestre Leonardo Castello Branco, entre outros... Como treino não se comenta, só posso dizer que apanhei muito e aprendi muito.

Desse tempo para cá, já se vão quase 20 anos, e o que mudou no “treino de competição”? Se levarmos em consideração tudo o que o esporte evoluiu (tecnicamente e fisicamente), e o que a ciência do treinamento evoluiu, vemos que esse tipo de treino parou no passado, pois continua na mesma rotina de um aquecimento monstruoso (corridas, flexões, entradas de quedas, abdominais intermináveis, defesas de double-leg, mais corridas, exercícios em duplas, e por aí vai). Ao final da “tentativa de homicídio”, vinha o famoso parcial, ou conhecido também como “rei da mesa”. Escolhia-se uma posição e um objetivo e a fila ficava andando, durava de 15 a 20 minutos, e quem era bom, treinava o tempo todo, quem não era (meu caso na época), treinava pouquíssimo e voltava para o final da fila, até esperar sua vez novamente para tentar não ser raspado em 20 segundos. Após isso, se tiravam dúvidas de posições e íamos para os rolas, geralmente de 10 minutos, com o intervalo somente para arrumar o quimono entre eles, e os que ficavam de fora, geralmente orientavam os treinos. E esse tipo de treino se perpetua até hoje nas academias, sem grandes mudanças no seu formato.

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Itallo Vilardo falou sobre o treino de competição em seu novo artigo (Foto Arquivo Pessoal) 


Sobrevivemos, muitos foram campeões, ídolos! Mas qual é a correlação desse treino com a competição? Pois, se o nome é “treino de competição”, deve ter algo que possa ser comparado a uma competição, pois, se não, é somente um treino muito forte, com um monte de gente gritando em volta. Correto?

Já é mais do que demonstrado que a análise da competição (já falei muito disso em artigos anteriores) está presente na preparação tática e técnica (que, juntas, estão dentro do padrão de preparação física), pois os dados obtidos nessa análise serão fundamentais para se montar o treino, principalmente o treino de competição, pois o “treino de competição” deve recriar o ambiente competitivo, desde seu início (aquecimento), até a organização do tempo de treino e intervalo entre as atividades.

O primeiro passo é respeitar o ritual do atleta na hora do aquecimento. Se o atleta A, no dia da competição, aquece começando com uma meditação, passando a rolamentos, saltos e pronto, já está aquecido, é exatamente dessa forma que ele deve aquecer no dia do “treino de competição”. Se o atleta B faz um aquecimento com corridas, troca de pegadas com colegas, saltos, entradas de quedas e se sente pronto para lutar, é exatamente assim que ele deve aquecer no dia da competição. E se o atleta C simplesmente relaxa e dorme com o fone de ouvido e, ao ser chamado para lutar, já diz que está pronto, ótimo! Esse é o ritual dele no dia da competição e deve ser respeitado no dia do “treino de competição”, pois como eu falei, deve-se recriar o ambiente competitivo em todos os aspectos. Quanto mais próximo da realidade, mais o atleta vai estar acostumado com aquilo no dia da competição e assim sentir menos qualquer tipo de pressão.

Outro fator é quanto a quantidade e tempo de rolas. Um atleta faixa-roxa deve treinar 7 minutos! Nem um minuto a mais e nem um minuto a menos. Treinar 10 minutos não significa que ele vai melhorar o rendimento, pelo contrário, significa que ele vai preparar o corpo dele para usar o máximo em 10 minutos e, quando chegar no dia da competição, ele não vai render o esperado, pois o ritmo é totalmente diferente. Assim como o intervalo entre os rolas deve ser sempre igual ao intervalo da competição, que geralmente é, no mínimo, igual ao mesmo tempo de luta. Ou seja, treinou 7 minutos, descansa 7 minutos, pois assim você recria o processo fisiológico que seu corpo vai passar durante o intervalo na competição e ele não é surpreendido no dia da luta. Se você faz um rola seguido do outro, seu corpo vai se preparar para sempre estar pronto para lutar, em sequência, sem descanso. E quando chegar na competição, após a vitória na primeira luta, ele vai continuar em estado de alerta, sendo que, como você é obrigado a descansar (regra), o seu corpo não entende e fica desregulado, e quando tem que voltar para a área de luta, ele pode não conseguir o estado de antes.

A mesma coisa quanto a quantidade de rolas. Estudar as competições anteriores é fundamental para isso. Se você sabe que nas competições dos anos anteriores, o atleta que foi campeão fez cinco lutas, seu treino deve ser baseado em média de cinco rolas, sendo quatro rolas no dia em que o treino for mais fraco e seis rolas no dia de treino mais forte, para se ter uma base pautada no que realmente acontece.

Desde 2013, eu tenho organizado os camps de treino de diversos atletas e equipes para os principais campeonatos (Pan, Mundial, World Pro e Copa Podio), e essas informações são de fundamental importância para criar os cronogramas de treinos diários, e não é por acaso que sempre obtivemos excelentes resultados.

Não adianta treinarmos da mesma forma há 30 anos. Temos que seguir o que a ciência diz, nos atualizarmos e trazermos o treino sempre para a realidade. “Casca-grossagem” é bom, o treino de “tentativa de homicídio” é válido ainda, mas uma vez ou outra, e não deve ser mais importante que o treino feito da maneira correta, estruturado e organizado. Como sempre digo: “Treino duro, luta dura! Treino CERTO, luta fácil!”.

Alguma dúvida? Pergunte enviando e-mail para itallovilardo@yahoo.com.br ou acesse www.itallovilardo.com