Suspenso pelo UFC, Matheus Nicolau disputa seletiva do ADCC e diz: 'Fase mais difícil da carreira'

Mateus Machado

16/02/2017 02:37

Atleta do Ultimate na categoria peso-mosca, com um cartel de 12 vitórias e somente uma derrota no MMA profissional, Matheus Nicolau participou do reality show TUF Brasil 4 e, logo depois, foi contratado pela organização. Em suas duas lutas oficiais pela franquia, a de maior destaque foi contra John Moraga, em julho do ano passado, quando teve boa atuação e superou seu adversário por decisão dividida, entrando no ranking da divisão. Com moral dentro do evento, o brasileiro foi escalado para encarar Yuki Sasaki no dia 19 de novembro, pelo UFC São Paulo. No entanto, faltando poucos dias para a edição, Matheus foi pego de surpresa com uma notícia que o abalou. 

* Relembre: Nicolau comenta período 'na geladeira' e caso de doping: ‘Não acreditei que estava acontecendo’

O mineiro foi flagrado pela USADA (Agência Antidoping dos EUA) em um teste realizado fora do período de competição e, desta forma, recebeu suspensão de um ano do órgão, podendo voltar ao Ultimate apenas em novembro deste ano. Sem poder competir no MMA por conta do gancho recebido, Matheus Nicolau vem buscando manter a forma com os treinamentos e também disputando algumas competições de grappling. 

No último dia 4 de fevereiro, o lutador entrou em ação na seletiva carioca que ofereceu vagas para o ADCC, maior campeonato de luta agarrada do mundo, que será disputado em setembro, na Finlândia. Após vencer bem sua primeira luta, Matheus partiu para o seu segundo desafio, todavia, acabou sendo derrotado e, consequentemente, eliminado do torneio. Em entrevista exclusiva à TATAME, Nicolau comentou sobre o difícil momento que vem enfrentando na carreira por conta da suspensão aplicada pela USADA. 

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Matheus Nicolau falou de sua participação na seletiva do ADCC e situação no Ultimate (Foto Mateus Machado)


"Com certeza, nesse ponto de vista financeiro, de apoio de patrocínio, eu estou vivendo a fase mais difícil da minha carreira. Não é nada legal conviver com uma suspeita de doping, com certeza é uma fase muito difícil por isso. Mas como já falei, tudo tem um propósito, então estou aprendendo muitas coisas com esse período. Apesar das dificuldades, eu estou vivendo, estou focado, treinando, e com certeza, coisas boas virão em um futuro próximo", afirmou o atleta. 

Veja a entrevista completa com Matheus Nicolau abaixo: 

- O que o levou a disputar a seletiva carioca para o ADCC

Desde que aconteceu o episódio da USADA, do doping com o UFC, e eu estava com luta marcada para novembro do ano passado, eu vim procurando onde eu poderia me manter focado, pegando ritmo de competição e continuar evoluindo a minha arte marcial, daí eu vi o ADCC aqui com uma regra legal, que é sem quimono, que é mais parecido com o MMA. A variação de golpes que você pode dar é diferente do Jiu-Jitsu, é um pouco mais abrangente, já que você pode dar várias chaves. Eu achei que era uma boa oportunidade para estar competindo, mantendo o ritmo e estar evoluindo como artista marcial. Caí para dentro, passei a treinar mais focado para isso e vim me testar.

- Campanha e análise de suas lutas na seletiva

Eu ganhei a primeira luta de um cara muito duro, o Henrique Gomes, que foi até finalista da seletiva de São Paulo, fiz uma estratégia legal. Na segunda luta, duas semanas atrás, eu tomei uma heel hook no meu pé que me deixou muito arisco nessa posição. O cara me chamou para a guarda e eu fiquei evitando aquele jogo ali, porque eu vi que ele estava de olho em querer encaixar uma finalização no meu pé, então eu fiquei muito tempo evitando aquilo. Daí, quando eu vi que eu estava perdendo por duas punições, faltava um minuto para terminar a luta, foi quando eu consegui escutar meu corner e aí foi a hora que eu comecei a atacar ele, tentar passar a guarda dele... Acabou que, eu passando a guarda dele, ele me deu as costas, e a luta acabou comigo botando um gancho, com a "faca" do meu antebraço no pescoço dele, mas não consegui botar o outro gancho, então não deram os pontos, perdi por duas punições. Faltou um pouco de ritmo de competição, aquela confiança no meu Jiu-Jitsu, de trocar Jiu-Jitsu com o cara, também pelo o que falei da heel hook... Eu não queria entrar naquele jogo embolado de perna e acabar sobrando o meu pé, que já estava um pouco machucado. Mas eu avaliei que foi legal. Achei que, apesar de ter feito poucas lutas, achei que tive um desempenho legal. Não cometi muitos erros técnicos, apesar de cometer um erro de estratégia de não ter ficado ligado no placar. Mas acho que, com um ritmo de competição, um treino mais focado nisso, eu posso voltar a competir em mais alto nível as competições de grappling também. Acho que foi muito válido, uma experiência muito válido. Com certeza, saí daqui um artista marcial melhor que quando cheguei para competir.

- Planejamento em disputar outros torneios no grappling

Na verdade, o meu foco em competições de grappling foi mais até essa seletiva do ADCC. Eu vou dar uma olhada no calendário de competições, tanto aqui no Brasil quanto lá fora (exterior). Eu estou me ajeitando aqui, aproveitando esse tempo para ficar com a família, para ajeitar, criar uma base legal para poder ir para o exterior de novo. Vou ver as oportunidades que aparecem para mim, pelo menos para o meu próximo semestre, já que eu tomei uma punição de um ano. A gente está tentando diminuir essa punição, mas é um processo muito burocrático e lento. Enquanto isso, pensando no pior cenário, eu vou estar voltando ao UFC em novembro, que é quando acaba um ano de punição. Então, pelo menos para o próximo semestre, vou ver quais competições são importantes disputar. Eu acho muito importante estar me mantendo em ritmo de competição, estar me mantendo focado, treinado para algo, para não deixar dar aquela moleza. Quero continuar evoluindo, porque um ano passa muito rápido e logo, logo, estou de volta ao octógono. Então, minha ideia é voltar para casa, ver o calendário, o que tem de importante para disputar, e, com certeza, focar em algumas competições para manter o ritmo até voltar ao UFC.

- Ajuda da família em um momento delicado

Acho que a ajuda da família é essencial, porque apoiam a gente em qualquer situação, colocam a mão no fogo pela gente e acreditam, dão uma força enorme. Eu sou muito grato pelos meus familiares, minha família é muito unida, muito perto de mim. Inclusive, a minha madrinha pagou a inscrição para eu lutar aqui, porque eu estava precisando da ajuda dela. Eu estou vivendo um dia de cada vez... Eu não tenho uma religião, mas acredito em Deus, acredito que tudo aconteça por um motivo, e, com certeza, todo esse episódio do doping, esse tempo parado vai fazer com que eu possa amadurecer e evoluir muito como homem, não só na minha carreira. Vou continuar focado, porque a guerra continua. Eu perdi uma batalha, dei uma tropeçada, agora é provar minha inocência e continuar focado em ser o melhor artista marcial possível. É assim que eu estou ocupando a minha cabeça para não deixar a peteca cair e continuar no caminho do guerreiro.

- Em qual situação voltará ao UFC?

Isso ainda é uma incógnita para mim. Eu confio muito nos meus treinadores, no meu empresário, e esse é um trabalho que eu vou deixar um pouco na mão dele, porque confio que ele vai fazer um bom trabalho e arrumar uma boa luta para a gente já voltar fazendo um bom duelo, para também voltar ao ranking, no Top 10, porque quando eu saí, estava nessa posição, tinha vencido o John Moraga e entrei no ranking. Vou deixar isso na mão dele e a gente vai estar pronto para qualquer desafio.

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Matheus Nicolau só poderá retornar ao Ultimate a partir de novembro, quando acaba sua suspensão (Foto Getty Images)


- Importância de alternar treinos no Brasil e nos EUA

Eu sou muito ligado em estar saindo sempre da zona de conforto. Eu fiquei na Jackson-Wink, fiquei lá no ano passado por seis meses. Acho que foi muito importante para a minha carreira, aprendi muita coisa, vi muita coisa diferente, vi coisas parecidas também com o que eu já fazia aqui na Nova União. Vi que, em algumas situações, eu estava no caminho certo mesmo. É uma coisa importante demais, que eu gosto muito de fazer. É algo que eu até costumo falar, que eu sou meio nômade, porque estou sempre viajando e buscando novas informações. Acho que sair da zona de conforto é essencial para quem está no MMA, e a minha ideia é essa. Eu estou arrumando a minha base, arrumando uma raiz legal, correndo atrás de patrocínio, de grana, para que, assim que possível, eu possa viajar de novo. Seja para São Paulo, para treinar no Demian Maia, onde eu já fiz vários camps, seja nos Estados Unidos, na Jackson Wink ou em outras academias. Mas a minha ideia é essa, estar viajando para buscar cada vez mais conhecimento.

- Momento mais delicado da carreira financeiramente

Com certeza, nesse ponto de vista financeiro, de apoio de patrocínio, eu estou vivendo a fase mais difícil da minha carreira. Não é nada legal conviver com uma suspeita de doping, com certeza é uma fase muito difícil por isso. Mas como já falei, tudo tem um propósito, então estou aprendendo muitas coisas com esse período. Apesar das dificuldades, eu estou vivendo, estou focado, treinando, e com certeza, coisas boas virão em um futuro próximo.